Questão nº 3

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 3)

FCC2024Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Engenharia (Civil)Língua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

Os deuses da cidade

Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.

A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).

Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.

Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Uma cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.

(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 333-336, passim)


No primeiro parágrafo, o autor expande sua afirmação inicial de que Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos recomendando que, para de fato reconhecermos o que seja uma cidade, devemos

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

Para realmente entender uma cidade, é preciso primeiro eliminar as ideias e imagens que já temos sobre ela, que podem atrapalhar nossa percepção e compreensão.

  • (A) Incorreta: O texto compara a cidade a uma máquina para entender seu funcionamento, mas não a descreve como "tosca" ou "de funcionamento precário" no primeiro parágrafo.
  • (B) Incorreta: O autor sugere "ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário", ou seja, organizar os fragmentos para formar um todo compreensível, e não valorizá-los como algo "irremediavelmente fragmentário".
  • (C) Incorreta: O texto afirma que é preciso "descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas", o que é o oposto de se "amparar" em visões já cristalizadas pela tradição.
  • (D) Correta: A afirmação "descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas" no primeiro parágrafo corresponde diretamente a "expurgar da imagem da cidade as incorporações pregressas que impedem de reconhecê-la". A armadilha aqui seria se prender a outras partes do parágrafo que descrevem o próximo passo (simplificar e ligar fragmentos), mas a questão foca na recomendação inicial para "reconhecer o que seja uma cidade".
  • (E) Incorreta: O texto recomenda "simplificar, reduzir ao essencial" para compreender a cidade, o que contraria a ideia de apenas "corresponder à complexidade" ou aceitar "mistérios indevassáveis"; o objetivo é justamente entender seu funcionamento.

Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Engenharia (Civil) (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.

Continue estudando

Estudar é izi

Pratique milhares de questões como esta, de graça, com explicação e gamificação no Quizinho.

Estudar de graça no Quizinho