Questão nº 4

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2024 (nº 4)

FCC2024Analista Judiciário - Área Administrativa - Especialidade ContabilidadeLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

Os deuses da cidade

Para ver uma cidade não basta ficar de olhos abertos. É preciso primeiramente descartar tudo aquilo que impede de vê-la, todas as ideias recebidas, as imagens pré-constituídas que continuam a estorvar o campo visual e a capacidade de compreensão. Depois é preciso saber simplificar, reduzir ao essencial o enorme número de elementos que a cada segundo a cidade põe diante dos olhos de quem a observa, e ligar os fragmentos espalhados num desenho analítico e ao mesmo tempo unitário, como o diagrama de uma máquina, com o qual se possa compreender como ela funciona.

A comparação da cidade com uma máquina é, ao mesmo tempo, pertinente e desviante. Pertinente porque uma cidade vive na medida em que funciona, isso é, em que serve para se viver nela e para fazer viver. Desviante porque, diferentemente das máquinas, que são criadas com vistas a uma determinada função, as cidades são todas ou quase todas o resultado de adaptações sucessivas a funções diferentes, não previstas por sua fundação anterior (penso nas cidades italianas com sua história de séculos ou de milênios).

Mais do que com a máquina, é a comparação com o organismo vivo na evolução da espécie que pode nos dizer alguma coisa importante sobre a cidade: como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades. E não podemos esquecer que na história da evolução toda espécie carrega consigo características que parecem de outras eras, na medida em que já não correspondem a necessidades vitais, mas que talvez um dia, em condições ambientais transformadas, serão as que salvarão a espécie da extinção. Assim a força da continuidade de uma cidade pode consistir em características e elementos que hoje parecem prescindíveis, porque esquecidos ou contraditos por seu funcionamento atual.

Os antigos representavam o espírito de uma cidade com aquele tanto de vago e aquele tanto de preciso que essa operação implica, evocando os nomes dos deuses que presidiram sua fundação: nomes que equivalem a personificações de posturas vitais do comportamento humano e que tinham de garantir a vocação profunda da cidade. Uma cidade pode passar por catástrofes e anacronismos, ver estirpes diferentes sucedendo-se em suas casas, ver suas casas mudarem cada pedra, mas deve, no momento certo, sob formas diferentes, reencontrar os próprios deuses.

(Adaptado de CALVINO, Ítalo. Assunto encerrado. Trad. Roberta Barni. São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 332-336, passim)


Para fundamentar sua comparação da cidade com um organismo vivo (3º parágrafo), o autor se vale da convicção de que em ambos os casos

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

O conceito-chave aqui é a analogia, que é a comparação entre duas coisas diferentes para explicar uma delas, destacando semelhanças em sua estrutura ou funcionamento. O autor usa a analogia da cidade com um organismo vivo para explicar como as cidades mudam e persistem ao longo do tempo.

(A) Incorreta: Embora o texto mencione "deuses" no título e no último parágrafo, eles representam o "espírito" ou a "vocação" da cidade, não um "projeto divino" para a evolução biológica de espécies ou o desenvolvimento urbano no sentido científico que o 3º parágrafo aborda. A questão foca no 3º parágrafo, que trata de evolução e adaptação, não de criação divina.
(B) Incorreta: A comparação com a máquina (2º parágrafo) é considerada "desviante" porque máquinas são criadas com funções específicas, enquanto cidades se adaptam. A ideia de "aprimorado pelo homem" se encaixa mais na máquina do que no organismo vivo ou na cidade, que evoluem por adaptação, não por um modelo funcional humano.
(C) Correta: O 3º parágrafo afirma explicitamente: "como, ao passar de uma era para outra, as espécies vivas adaptam seus órgãos para novas funções ou desaparecem, assim também as cidades." Isso descreve perfeitamente a "sucessiva e evolutiva adaptação a novas funções", que é o ponto central da comparação.
(D) Incorreta: O texto não sugere que a adaptação seja uma "ilusão de aprimoramento". Pelo contrário, ele a apresenta como um processo real e necessário para a continuidade, tanto das espécies quanto das cidades, para que não desapareçam.
(E) Incorreta: Esta alternativa contradiz diretamente o texto. O 2º parágrafo já indica que as cidades são resultado de "adaptações sucessivas a funções diferentes". O 3º parágrafo reforça que espécies e cidades "adaptam seus órgãos para novas funções", o que implica que as funções vitais não são invariáveis, mas sim mutáveis.

Fonte: FCC TRT15 2024 Analista Judiciário - Área Administrativa - Especialidade Contabilidade (Caderno Tipo 005). Reproduzida para fins de estudo.

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