Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT15 2023 (nº 8)
Blefes
Ninguém conhece a alma humana melhor do que um jogador de pôquer. A sua e a do próximo. Numa mesa de pôquer o homem chega ao pior e ao melhor de si mesmo, e vai da euforia ao ódio numa rodada. Mas sempre como se nada estivesse acontecendo. Os americanos falam do poker face, a cara de quem consegue apostar tendo uma boa carta ou nada na mão com a mesma impassividade, embora a lava esteja turbilhonando lá dentro. Porque sabe que está rodeado de fingidos, o jogador de pôquer deve tentar distinguir quem tem jogo de quem não tem e está blefando por um tremor na pálpebra, por um tique na orelha. Ou ultrapassando a fachada e mergulhando na alma do outro.
Não se trata de adivinhar seu caráter. Não é uma questão de caráter. O blefe é um lance tão legítimo quanto qualquer outro no pôquer. Os puros são até melhores blefadores, pois só quem não tem culpa pode sustentar um poker face perfeito sob o escrutínio hostil da mesa. Há quem diga que ganhar com um blefe supera ganhar com boas cartas e que é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar, e portanto de acaso, e se torna um jogo de talento. Já fora do pôquer o blefe perde sua respeitabilidade. É apenas sinônimo de engodo. Geralmente aplicado a pessoas que não eram o que pareciam ou fingiam ser.
(Adaptado de: VERÍSSIMO, Luis Fernando. As mentiras que os homens contam. São Paulo: Cia das Letras, 2015)
é no blefe que o pôquer deixa de ser um jogo de azar.
O uso do termo "que", tendo em vista a sua relação com a forma verbal "é", produz no trecho um efeito de
- Anegação.
- Bambiguidade.
- Ccontraste.
- Drealce. (alternativa correta)
- Eironia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A construção "é... que" é uma oração clivada, uma estrutura gramatical usada para destacar ou dar ênfase a uma parte específica da frase.
- A) Incorreta: A frase não contém elementos de negação (como "não") que indiquem o sentido de negar algo.
- B) Incorreta: A frase é clara e tem um único sentido, não apresentando múltiplas interpretações.
- C) Incorreta: Embora a frase estabeleça uma distinção entre pôquer como jogo de azar e de talento, o uso do "é... que" não é para criar contraste, mas sim para destacar o elemento que provoca essa mudança (o blefe). A construção em si não é um conector de contraste. A armadilha aqui é confundir o conteúdo da frase (que envolve uma ideia de oposição) com a função gramatical da estrutura "é... que".
- D) Correta: A construção "é no blefe que..." serve para colocar o termo "no blefe" em evidência, realçando que é especificamente nesse momento ou aspecto que a característica do pôquer muda.
- E) Incorreta: Não há indício de que a frase esteja sendo usada com um sentido oposto ao literal ou com intenção de zombaria.
Fonte: FCC TRT15 2023 Técnico Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Enfermagem do Trabalho (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.