Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT14 2022 (nº 3)
O meu ofício
O meu ofício é escrever, e sei bem disso há muito tempo. Espero não ser mal-entendida: não sei nada sobre o valor daquilo que posso escrever. Quando me ponho a escrever, sinto-me extraordinariamente à vontade e me movo num elemento que tenho a impressão de conhecer extraordinariamente bem: utilizo instrumentos que me são conhecidos e familiares e os sinto bem firmes em minhas mãos. Se faço qualquer outra coisa, se estudo uma língua estrangeira, se tento aprender história ou geografia, ou tricotar uma malha, ou viajar, sofro e me pergunto como é que os outros conseguem fazer essas coisas. E tenho a impressão de ser cega e surda como uma náusea dentro de mim.Já quando escrevo nunca penso que talvez haja um modo mais correto, do qual os outros escritores se servem. Não me importa nada o modo dos outros escritores. O fato é que só sei escrever histórias. Se tento escrever um ensaio de crítica ou um artigo sob encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim. O que escrevo nesses casos tenho de ir buscar fora de mim. E sempre tenho a sensação de enganar o próximo com palavras tomadas de empréstimo ou furtadas aqui e ali.
Quando escrevo histórias, sou como alguém que está em seu país, nas ruas que conhece desde a infância, entre as árvores e os muros que são seus. Este é o meu ofício, e o farei até a morte. Entre os cinco e dez anos ainda tinha dúvidas e às vezes imaginava que podia pintar, ou conquistar países a cavalo, ou inventar uma nova máquina. Mas a primeira coisa séria que fiz foi escrever um conto, um conto curto, de cinco ou seis páginas: saiu de mim como um milagre, numa noite, e quando finalmente fui dormir estava exausta, atônita, estupefata.
Considerando-se o contexto, traduz-se o sentido de um segmento do texto em:
- Ame movo num elemento (1º parágrafo) = mobiliza-me um estímulo
- Bcomo uma náusea dentro de mim. (1º parágrafo) = tal uma implosão em mim arrefecida
- Cpalavras tomadas de empréstimo (2º parágrafo) = a quem emprestei meus nomes
- Dsaiu de mim como um milagre, (3º parágrafo) = manou miraculosamente de mim (alternativa correta)
- Eexausta, atônita, estupefata. (3º parágrafo) = dolente, surpresa, indignada
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Interpretar o sentido de um segmento de texto significa encontrar uma paráfrase ou sinônimo que mantenha a mesma ideia central e o mesmo tom do trecho original, sem adicionar ou subtrair informações cruciais.
(A) Incorreta: "me movo num elemento" (sentir-se à vontade, em seu ambiente natural) não significa "mobiliza-me um estímulo" (ser impulsionado por algo externo).
(B) Incorreta: "como uma náusea dentro de mim" (sensação de mal-estar profundo, aversão) não se traduz como "tal uma implosão em mim arrefecida" (um colapso interno diminuído, menos intenso). A armadilha aqui é que "implosão" sugere algo negativo e interno, mas "arrefecida" contradiz a intensidade e o desconforto visceral da náusea.
(C) Incorreta: "palavras tomadas de empréstimo" (palavras que não são autênticas ou próprias do autor) não significa "a quem emprestei meus nomes" (ceder a própria identidade).
(D) Correta: "saiu de mim como um milagre" (emergiu, brotou de forma surpreendente e quase sobrenatural) é perfeitamente traduzido por "manou miraculosamente de mim", pois "manar" significa fluir, brotar, emanar, e "miraculosamente" reforça a ideia de milagre.
(E) Incorreta: "exausta, atônita, estupefata" (cansada, espantada, perplexa) não corresponde a "dolente, surpresa, indignada" (triste, espantada, revoltada), pois "dolente" e "indignada" alteram o sentido original de cansaço e espanto.
Fonte: FCC TRT14 2022 Conhecimentos Comuns (Analista Área Judiciária TRT14 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.