Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT14 2022 (nº 2)
O meu ofício
O meu ofício é escrever, e sei bem disso há muito tempo. Espero não ser mal-entendida: não sei nada sobre o valor daquilo que posso escrever. Quando me ponho a escrever, sinto-me extraordinariamente à vontade e me movo num elemento que tenho a impressão de conhecer extraordinariamente bem: utilizo instrumentos que me são conhecidos e familiares e os sinto bem firmes em minhas mãos. Se faço qualquer outra coisa, se estudo uma língua estrangeira, se tento aprender história ou geografia, ou tricotar uma malha, ou viajar, sofro e me pergunto como é que os outros conseguem fazer essas coisas. E tenho a impressão de ser cega e surda como uma náusea dentro de mim.Já quando escrevo nunca penso que talvez haja um modo mais correto, do qual os outros escritores se servem. Não me importa nada o modo dos outros escritores. O fato é que só sei escrever histórias. Se tento escrever um ensaio de crítica ou um artigo sob encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim. O que escrevo nesses casos tenho de ir buscar fora de mim. E sempre tenho a sensação de enganar o próximo com palavras tomadas de empréstimo ou furtadas aqui e ali.
Quando escrevo histórias, sou como alguém que está em seu país, nas ruas que conhece desde a infância, entre as árvores e os muros que são seus. Este é o meu ofício, e o farei até a morte. Entre os cinco e dez anos ainda tinha dúvidas e às vezes imaginava que podia pintar, ou conquistar países a cavalo, ou inventar uma nova máquina. Mas a primeira coisa séria que fiz foi escrever um conto, um conto curto, de cinco ou seis páginas: saiu de mim como um milagre, numa noite, e quando finalmente fui dormir estava exausta, atônita, estupefata.
Ao comparar diferentes modalidades de escrita, a autora afirma que
- Asua desenvoltura ao escrever histórias lhe é muito mais natural do que na abordagem de outros tipos de discurso. (alternativa correta)
- Bas histórias lhe trazem um prazer maior de escrever quando absorvem a linguagem própria dos ensaios.
- Cdiz coisas mais interessantes a respeito de seu país quando suas histórias se avizinham de um artigo de jornal.
- Descrever histórias sempre lhe pareceu tão natural quanto reportar a imaginosa conquista de outros países.
- Eo conto foi sua primeira especialidade literária, antes de se consagrar com a invenção de novos gêneros literários.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A interpretação de texto é a habilidade de compreender o que o autor realmente quis transmitir, identificando a ideia principal e os detalhes que a sustentam, sem adicionar informações externas ou distorcer o sentido original.
- (A) Correta: A autora expressa claramente que, ao escrever histórias, sente-se "extraordinariamente à vontade" e em um "elemento que tenho a impressão de conhecer extraordinariamente bem", utilizando "instrumentos que me são conhecidos e familiares". Em contraste, ao tentar escrever "um ensaio de crítica ou um artigo sob encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim", e ela tem a sensação de "enganar o próximo com palavras tomadas de empréstimo". Isso demonstra uma desenvoltura e naturalidade muito maiores na escrita de histórias em comparação com outros tipos de discurso.
- (B) Incorreta: O texto afirma o oposto. A autora diz que, se tenta escrever um ensaio, "a coisa sai bem ruim" e que ela precisa "ir buscar fora de mim" o que escrever, sentindo-se como se estivesse enganando. Não há prazer em absorver a linguagem de ensaios; há dificuldade.
- (C) Incorreta: A autora sente-se "em seu país" quando escreve histórias, o que sugere uma conexão natural e autêntica. No entanto, ela explicitamente afirma que, ao tentar escrever um "artigo sob encomenda para um jornal, a coisa sai bem ruim". Não há indicação de que suas histórias se tornem mais interessantes ao se aproximarem de artigos de jornal; pelo contrário, essa tentativa resulta em algo de má qualidade para ela.
- (D) Incorreta: Esta é uma armadilha da banca. Embora a autora diga que escrever histórias lhe pareceu natural ("saiu de mim como um milagre"), a comparação com "reportar a imaginosa conquista de outros países" é falha. Conquistar países a cavalo era uma fantasia de infância, algo que ela "imaginava" ou sobre o qual "tinha dúvidas" se podia fazer, não uma atividade que ela considerava natural para si ou que se sentia capaz de "reportar" com facilidade. O texto contrasta essas fantasias com a "primeira coisa séria" que fez, que foi escrever um conto.
- (E) Incorreta: O texto menciona que "a primeira coisa séria que fiz foi escrever um conto", indicando que foi sua primeira especialidade. Contudo, não há menção de que ela se consagrou com a "invenção de novos gêneros literários". A ideia de "inventar uma nova máquina" é citada como uma das fantasias de infância, não como um feito literário ou um gênero que ela criou.
Fonte: FCC TRT14 2022 Conhecimentos Comuns (Analista Área Judiciária TRT14 2022) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.