Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-15 2018 (nº 1)
Sem grande aviso, o mundo digital está mudando em suas bases. O que um dia foi um meio anônimo transformou-se numa ferramenta dedicada a analisar dados pessoais.
Grande parte das pessoas imaginam que, ao procurar um termo na internet, todos obteremos os mesmos resultados. No entanto, hoje isso já não é verdade. Agora, obtemos o resultado que um filtro personalizado sugere ser melhor para cada usuário específico.
Durante algum tempo, parecia que a internet iria redemocratizar a sociedade. “Jornalistas cidadãos” iriam reconstruir os meios de comunicação. Os governos locais se tornariam mais transparentes. Contudo, esses tempos de conectividade cívica com os quais eu tanto sonhava ainda não chegaram.
A democracia exige que os cidadãos enxerguem as coisas pelo ponto de vista dos outros; em vez disso, estamos cada vez mais fechados em nossas próprias bolhas. A democracia exige que nos baseemos em fatos compartilhados; no entanto, estão nos oferecendo universos distintos e paralelos.
Naturalmente, há boas razões para que os filtros personalizados sejam tão fascinantes. Somos sobrecarregados por uma torrente de informações. Eric Schmidt costuma ressaltar que, se gravássemos toda a comunicação humana desde o início dos tempos até 2003, precisaríamos de 5 bilhões de gigabytes para armazená-la. Agora, criamos essa mesma quantidade de dados a cada dois dias.
Tudo isso levará ao colapso da atenção. Somos cada vez mais incapazes de processar tanta informação. Nossa concentração se desvia da mensagem de texto para as principais notícias e daí para o e-mail. A tarefa de examinar essa torrente cada vez mais ampla em busca das partes realmente importantes, ou apenas relevantes, já demanda dedicação integral. Assim, quando os filtros personalizados oferecem uma ajuda, tendemos a aceitá-la.
Deixados por conta própria, os filtros de personalização servem como uma espécie de autopropaganda invisível, doutrinando-nos com nossas próprias ideias, amplificando nosso desejo por coisas conhecidas e nos deixando alheios aos perigos ocultos no território do desconhecido. Na bolha dos filtros, há menos espaço para os encontros fortuitos que proporcionam novas percepções e aprendizados.
A criatividade muitas vezes é atiçada pela colisão de ideias surgidas em disciplinas e culturas diferentes. Por definição, um mundo construído a partir do que é familiar é um mundo no qual não temos nada a aprender. Se a personalização for excessiva, poderá nos impedir de entrar em contato com experiências e ideias capazes de mudar o modo como pensamos.
Das megacidades à nanotecnologia, estamos criando uma sociedade cuja complexidade ultrapassa os limites da compreensão individual. Os problemas que enfrentaremos nos próximos vinte anos – escassez de energia, terrorismo, mudança climática – têm uma abrangência enorme. Os primeiros entusiastas da internet esperavam que a rede fosse uma nova plataforma para enfrentarmos esses problemas. Acredito que ainda possa ser.
Mas, antes, precisamos entender as forças que estão levando a internet em sua direção atual, personalizada. Precisamos entender as forças econômicas e sociais que movem a personalização, algumas inevitáveis, outras não. E precisamos entender o que tudo isso representa para a política, a cultura e o futuro. E como a bolha dos filtros distorce a percepção do que é importante, verdadeiro e real, é fundamental torná-la visível.
Considere as afirmações abaixo.
I. Os filtros de personalização, uma vez que isolam os indivíduos no universo de suas próprias ideias, são incompatíveis com certas premissas básicas da democracia, como a de que é necessário considerar sempre o ponto de vista do outro.
II. Ao concluir o texto, o autor explicita as forças políticas e sociais que vêm contribuindo para o fortalecimento da tendência de personalizar o conteúdo acessado pela internet e manifesta o intuito de combatê-las por meio da própria rede.
III. Um dos motivos para o caráter fascinante dos filtros personalizados reside no fato de que, embora atualmente desmedida, a personalização aprofunda o contato com nossas próprias experiências e ideias, contribuindo assim para que tiremos proveito da casualidade e do inusitado.
Está correto o que se afirma APENAS em
- AII e III.
- BI e III.
- CI. (alternativa correta)
- DI e II.
- EII.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A interpretação de texto exige que você compreenda as ideias principais e secundárias do autor, identificando o que é explicitamente afirmado e o que é inferido, sem adicionar informações externas ou distorcer o sentido original.
(A) Incorreta: A afirmação II está incorreta porque o autor, no parágrafo 10, apenas menciona a necessidade de "entender as forças econômicas e sociais que movem a personalização", mas não as explicita ou detalha no texto. Além disso, embora ele sugira a possibilidade de a internet ainda ser uma plataforma para enfrentar problemas, não há uma manifestação explícita de "combatê-las por meio da própria rede" no sentido de uma estratégia de combate.
(B) Incorreta: A afirmação III está incorreta porque o texto afirma o oposto: os filtros de personalização diminuem o contato com o inusitado e os encontros fortuitos. O parágrafo 7 diz: "Na bolha dos filtros, há menos espaço para os encontros fortuitos que proporcionam novas percepções e aprendizados." E o parágrafo 8 complementa que um mundo familiar não oferece aprendizado, impedindo o contato com experiências e ideias capazes de mudar o modo como pensamos.
(C) Correta: A afirmação I está correta. O parágrafo 4 afirma explicitamente: "A democracia exige que os cidadãos enxerguem as coisas pelo ponto de vista dos outros; em vez disso, estamos cada vez mais fechados em nossas próprias bolhas." O parágrafo 7 reforça que os filtros nos doutrinam "com nossas próprias ideias", isolando os indivíduos e tornando-os alheios ao desconhecido. Essa incompatibilidade com a premissa democrática de considerar o ponto de vista alheio é um ponto central do texto.
(D) Incorreta: Esta alternativa está incorreta porque a afirmação II é falsa, como explicado acima.
(E) Incorreta: Esta alternativa está incorreta porque a afirmação II é falsa, como explicado acima.
Fonte: FCC TRT-15 2018 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Arquitetura (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.