Questão nº 7

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 7)

FCC2023Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓
  1. Os paroquianos estranharam que, apesar de tão moço, o vigário novo fosse a tal ponto reservado, só falando o indispensável, sempre com a batina lambuzada de terra ou de tinta, às voltas com os reparos materiais da igreja. Com o tempo, acreditou-se, o sacerdote se faria amigo pelo menos das pessoas mais importantes do lugar, o prefeito, o presidente da Câmara, os representantes da Justiça, o médico, dois ou três fazendeiros, o farmacêutico. Na porta do estabelecimento deste último é que se discutia a personalidade do vigário, formando-se um grupo contra e outro a favor.

  2. — Parece que ele até faz pouco-caso da gente.

  3. — Nunca vi um sujeito de cara tão amarrada.

  4. Os simpatizantes pegavam pelo aspecto mais evidente do padre.

  5. — Mas que homem danado de trabalhador!

  6. E o padre, sem dar mostras de perceber o pasmo da cidade, sempre com suas ferramentas, ativo e suarento. Uma notícia, entretanto, deu aos munícipes a impressão de que iria começar o degelo, isto é, o vigário passaria a ter um contato mais direto e caloroso com o povo e os interesses locais. Ele procurara o prefeito e os vereadores para pleitear um cemitério novo; o velho, nos fundos da casa paroquial, estava mesmo impraticável. Foi um alívio. Enfim, o padre tomara uma atitude perfeitamente normal, uma atitude que o incorporava à comunidade.

  7. — Eu não dizia — exclamava o farmacêutico —, eu apostava que o homem quer é trabalhar por nós. Francamente, este cemitério é indigno do progresso da cidade. A gente aqui nem pode morrer por falta de lugar.

  8. Com o entusiasmo, a Câmara votou uma verba especial para a aquisição de um terreno e benfeitorias adequadas. E não demorou que o novo campo-santo, depois de abençoado, fosse inaugurado com um discurso, no qual o prefeito apelava para os céus: aprouvesse a Deus que jamais um corpo inânime viesse a transpor os umbrais daquela necrópole. Seis dias depois, entretanto, um corpo inânime transpunha os umbrais daquela necrópole: Deus, de repente, chamara o farmacêutico.

  9. O vigário, realizada a sua única aspiração, passou a desaparecer por longas horas do dia; fora dos ofícios religiosos, raramente era visto, inquietando ainda mais os habitantes. Uma tarde, a bomba estourou: a viúva do coronel Inácio, indo levar flores à campa do falecido, no velho cemitério, descobrira a verdade macabra, a paisagem inacreditável: o antigo cemitério da cidade transformara-se escandalosamente numa horta. O estupor e a revolta não tiveram limites. Depois de muitos debates, uma comissão foi encarregada de levar ao vigário um pedido enérgico: aquilo não podia continuar, ali repousavam os entes queridos de todas as famílias da cidade: e estas esperavam que o senhor vigário arrancasse sem mais demora todos os pés de hortaliças. O vigário respondeu que não via matéria de escândalo, citou um versículo do Antigo Testamento e despediu a todos com impaciência.

  10. Foi aí que os homens válidos, pedindo a compreensão de Deus, resolveram invadir o cemitério, munidos de enxadas, facas e varapaus, para acabar com a horta que já não deixava ninguém dormir em paz, nem os mortos, nem os vivos. Pois, quando se aproximaram do cemitério, foram barrados pelo cano da espingarda do vigário: ali ninguém entrava vivo. Os homens voltaram desapontados e tornaram a discutir o impasse. Alguém então teve a ideia de se levar uma denúncia ao bispo da diocese. Uma semana depois, o padre embarcava numa jardineira com a mala, a espingarda e a cara amarrada. A população toda, depois de decidir que as hortaliças seriam destruídas, e não doadas aos pobres, entrou com o máximo respeito no velho cemitério e devastou a bela plantação.

(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Balé do pato e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2012)


O vigário respondeu que não via matéria de escândalo (9º parágrafo)

Transpondo o trecho acima para o discurso direto, o verbo da fala do vigário assume a seguinte forma:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Discurso direto é quando a fala de alguém é reproduzida exatamente como foi dita, com aspas ou travessão; discurso indireto é quando a fala é contada por um narrador, usando verbos como "disse", "respondeu" e conjunções como "que". Ao transformar do indireto para o direto, os tempos verbais geralmente "voltam" ao seu estado original, como se a fala estivesse acontecendo no momento em que foi proferida.

  • (A) Incorreta: "Veria" é futuro do pretérito. Se a fala original fosse "Eu não veria...", o discurso indireto seria "respondeu que não veria...", o que não corresponde a "não via".
  • (B) Incorreta: "Viu" é pretérito perfeito. Se a fala original fosse "Eu não vi...", o discurso indireto, com o verbo principal no passado ("respondeu"), seria "respondeu que não vira" (pretérito mais-que-perfeito) ou "respondeu que não tinha visto", o que não corresponde a "não via".
  • (C) Correta: "Vejo" é presente do indicativo. Quando a fala original no discurso direto está no presente ("Eu não vejo..."), e o verbo que introduz o discurso indireto está no passado ("respondeu"), o verbo da fala no discurso indireto se transforma em pretérito imperfeito ("respondeu que não via..."). Assim, "via" no indireto corresponde a "vejo" no direto.
  • (D) Incorreta: "Vira" é pretérito mais-que-perfeito. Se a fala original fosse "Eu não vira...", o discurso indireto seria "respondeu que não vira...", o que não corresponde a "não via" no sentido de uma ação presente na fala original.
  • (E) Incorreta: "Vi" é pretérito perfeito. É o mesmo caso da alternativa (B), não correspondendo à transformação correta de "não via" para o discurso direto.

Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.

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