Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 3)
Os paroquianos estranharam que, apesar de tão moço, o vigário novo fosse a tal ponto reservado, só falando o indispensável, sempre com a batina lambuzada de terra ou de tinta, às voltas com os reparos materiais da igreja. Com o tempo, acreditou-se, o sacerdote se faria amigo pelo menos das pessoas mais importantes do lugar, o prefeito, o presidente da Câmara, os representantes da Justiça, o médico, dois ou três fazendeiros, o farmacêutico. Na porta do estabelecimento deste último é que se discutia a personalidade do vigário, formando-se um grupo contra e outro a favor.
— Parece que ele até faz pouco-caso da gente.
— Nunca vi um sujeito de cara tão amarrada.
Os simpatizantes pegavam pelo aspecto mais evidente do padre.
— Mas que homem danado de trabalhador!
E o padre, sem dar mostras de perceber o pasmo da cidade, sempre com suas ferramentas, ativo e suarento. Uma notícia, entretanto, deu aos munícipes a impressão de que iria começar o degelo, isto é, o vigário passaria a ter um contato mais direto e caloroso com o povo e os interesses locais. Ele procurara o prefeito e os vereadores para pleitear um cemitério novo; o velho, nos fundos da casa paroquial, estava mesmo impraticável. Foi um alívio. Enfim, o padre tomara uma atitude perfeitamente normal, uma atitude que o incorporava à comunidade.
— Eu não dizia — exclamava o farmacêutico —, eu apostava que o homem quer é trabalhar por nós. Francamente, este cemitério é indigno do progresso da cidade. A gente aqui nem pode morrer por falta de lugar.
Com o entusiasmo, a Câmara votou uma verba especial para a aquisição de um terreno e benfeitorias adequadas. E não demorou que o novo campo-santo, depois de abençoado, fosse inaugurado com um discurso, no qual o prefeito apelava para os céus: aprouvesse a Deus que jamais um corpo inânime viesse a transpor os umbrais daquela necrópole. Seis dias depois, entretanto, um corpo inânime transpunha os umbrais daquela necrópole: Deus, de repente, chamara o farmacêutico.
O vigário, realizada a sua única aspiração, passou a desaparecer por longas horas do dia; fora dos ofícios religiosos, raramente era visto, inquietando ainda mais os habitantes. Uma tarde, a bomba estourou: a viúva do coronel Inácio, indo levar flores à campa do falecido, no velho cemitério, descobrira a verdade macabra, a paisagem inacreditável: o antigo cemitério da cidade transformara-se escandalosamente numa horta. O estupor e a revolta não tiveram limites. Depois de muitos debates, uma comissão foi encarregada de levar ao vigário um pedido enérgico: aquilo não podia continuar, ali repousavam os entes queridos de todas as famílias da cidade: e estas esperavam que o senhor vigário arrancasse sem mais demora todos os pés de hortaliças. O vigário respondeu que não via matéria de escândalo, citou um versículo do Antigo Testamento e despediu a todos com impaciência.
Foi aí que os homens válidos, pedindo a compreensão de Deus, resolveram invadir o cemitério, munidos de enxadas, facas e varapaus, para acabar com a horta que já não deixava ninguém dormir em paz, nem os mortos, nem os vivos. Pois, quando se aproximaram do cemitério, foram barrados pelo cano da espingarda do vigário: ali ninguém entrava vivo. Os homens voltaram desapontados e tornaram a discutir o impasse. Alguém então teve a ideia de se levar uma denúncia ao bispo da diocese. Uma semana depois, o padre embarcava numa jardineira com a mala, a espingarda e a cara amarrada. A população toda, depois de decidir que as hortaliças seriam destruídas, e não doadas aos pobres, entrou com o máximo respeito no velho cemitério e devastou a bela plantação.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Balé do pato e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2012)
"Expressão expletiva é uma expressão que não exerce função sintática". (Evanildo Bechara. Moderna gramática portuguesa, 2009. Adaptado)
Constitui uma expressão expletiva a expressão sublinhada em:
- AEnfim, o padre tomara uma atitude perfeitamente normal. (6º parágrafo)
- Bestas esperavam que o senhor vigário arrancasse sem mais demora todos os pés de hortaliças. (9º parágrafo)
- CDeus, de repente, chamara o farmacêutico. (8º parágrafo)
- DParece que ele até faz pouco-caso da gente. (2º parágrafo)
- ENa porta do estabelecimento deste último é que se discutia a personalidade do vigário. (1º parágrafo) (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Uma expressão expletiva (ou palavra de realce) é uma palavra ou frase que pode ser retirada de uma sentença sem que seu sentido essencial ou sua estrutura gramatical sejam alterados. Ela serve para dar ênfase ou realce, mas não desempenha uma função sintática fundamental.
- A) Incorreta: "Enfim" é um advérbio de tempo que indica conclusão ou finalização. Sua remoção altera o sentido de que a atitude foi tomada "finalmente" ou "por fim".
- B) Incorreta: "Sem mais demora" é uma locução adverbial de tempo que significa "imediatamente" ou "sem atraso". Sua remoção altera o sentido de urgência da ação.
- C) Incorreta: "De repente" é uma locução adverbial de tempo que indica algo súbito. Sua remoção altera o sentido de subitaneidade do evento.
- D) Incorreta: "Parece que" introduz uma oração subordinada substantiva subjetiva, expressando uma impressão ou opinião. Sua remoção transformaria uma impressão ("parece que...") em uma afirmação direta ("ele faz..."), alterando o sentido e a estrutura sintática.
- (E) Correta: A construção "é que" é um clássico caso de expressão expletiva ou de realce. Ela pode ser removida da frase sem prejuízo do sentido essencial ou da correção gramatical. A frase "Na porta do estabelecimento deste último se discutia a personalidade do vigário" mantém o mesmo significado básico da original, apenas com a ênfase dada pelo "é que" suprimida.
Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.