Questão nº 6

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 6)

FCC2023Técnico Judiciário - Área AdministrativaLíngua Portuguesa
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  1. Os paroquianos estranharam que, apesar de tão moço, o vigário novo fosse a tal ponto reservado, só falando o indispensável, sempre com a batina lambuzada de terra ou de tinta, às voltas com os reparos materiais da igreja. Com o tempo, acreditou-se, o sacerdote se faria amigo pelo menos das pessoas mais importantes do lugar, o prefeito, o presidente da Câmara, os representantes da Justiça, o médico, dois ou três fazendeiros, o farmacêutico. Na porta do estabelecimento deste último é que se discutia a personalidade do vigário, formando-se um grupo contra e outro a favor.

  2. — Parece que ele até faz pouco-caso da gente.

  3. — Nunca vi um sujeito de cara tão amarrada.

  4. Os simpatizantes pegavam pelo aspecto mais evidente do padre.

  5. — Mas que homem danado de trabalhador!

  6. E o padre, sem dar mostras de perceber o pasmo da cidade, sempre com suas ferramentas, ativo e suarento. Uma notícia, entretanto, deu aos munícipes a impressão de que iria começar o degelo, isto é, o vigário passaria a ter um contato mais direto e caloroso com o povo e os interesses locais. Ele procurara o prefeito e os vereadores para pleitear um cemitério novo; o velho, nos fundos da casa paroquial, estava mesmo impraticável. Foi um alívio. Enfim, o padre tomara uma atitude perfeitamente normal, uma atitude que o incorporava à comunidade.

  7. — Eu não dizia — exclamava o farmacêutico —, eu apostava que o homem quer é trabalhar por nós. Francamente, este cemitério é indigno do progresso da cidade. A gente aqui nem pode morrer por falta de lugar.

  8. Com o entusiasmo, a Câmara votou uma verba especial para a aquisição de um terreno e benfeitorias adequadas. E não demorou que o novo campo-santo, depois de abençoado, fosse inaugurado com um discurso, no qual o prefeito apelava para os céus: aprouvesse a Deus que jamais um corpo inânime viesse a transpor os umbrais daquela necrópole. Seis dias depois, entretanto, um corpo inânime transpunha os umbrais daquela necrópole: Deus, de repente, chamara o farmacêutico.

  9. O vigário, realizada a sua única aspiração, passou a desaparecer por longas horas do dia; fora dos ofícios religiosos, raramente era visto, inquietando ainda mais os habitantes. Uma tarde, a bomba estourou: a viúva do coronel Inácio, indo levar flores à campa do falecido, no velho cemitério, descobrira a verdade macabra, a paisagem inacreditável: o antigo cemitério da cidade transformara-se escandalosamente numa horta. O estupor e a revolta não tiveram limites. Depois de muitos debates, uma comissão foi encarregada de levar ao vigário um pedido enérgico: aquilo não podia continuar, ali repousavam os entes queridos de todas as famílias da cidade: e estas esperavam que o senhor vigário arrancasse sem mais demora todos os pés de hortaliças. O vigário respondeu que não via matéria de escândalo, citou um versículo do Antigo Testamento e despediu a todos com impaciência.

  10. Foi aí que os homens válidos, pedindo a compreensão de Deus, resolveram invadir o cemitério, munidos de enxadas, facas e varapaus, para acabar com a horta que já não deixava ninguém dormir em paz, nem os mortos, nem os vivos. Pois, quando se aproximaram do cemitério, foram barrados pelo cano da espingarda do vigário: ali ninguém entrava vivo. Os homens voltaram desapontados e tornaram a discutir o impasse. Alguém então teve a ideia de se levar uma denúncia ao bispo da diocese. Uma semana depois, o padre embarcava numa jardineira com a mala, a espingarda e a cara amarrada. A população toda, depois de decidir que as hortaliças seriam destruídas, e não doadas aos pobres, entrou com o máximo respeito no velho cemitério e devastou a bela plantação.

(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Balé do pato e outras crônicas. São Paulo: Ática, 2012)


Uma notícia, entretanto, deu aos munícipes a impressão de que iria começar o degelo, isto é, o vigário passaria a ter um contato mais direto e caloroso com o povo e os interesses locais. Ele procurara o prefeito e os vereadores para pleitear um cemitério novo; o velho, nos fundos da casa paroquial, estava mesmo impraticável. (6º parágrafo)

No trecho acima, o cronista relata uma série de fatos ocorridos no passado. Um fato anterior a esse tempo passado está indicado pela seguinte forma verbal:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

O pretérito mais-que-perfeito é um tempo verbal usado para indicar uma ação que ocorreu e foi concluída antes de outra ação também no passado. É como dizer "já tinha feito" algo.

(A) Correta: A forma verbal "procurara" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) indica que a ação de procurar o prefeito e os vereadores aconteceu antes da notícia "dar" a impressão aos munícipes (que é um fato no passado).
(B) Incorreta: "Pleitear" é um verbo no infinitivo, não indicando um tempo verbal específico em relação ao passado, mas sim a finalidade da ação de procurar.
(C) Incorreta: "Passaria" é um futuro do pretérito, indicando uma ação que iria acontecer no futuro, a partir de um ponto no passado, e não uma ação que já havia acontecido antes.
(D) Incorreta: "Deu" é um pretérito perfeito simples, indicando uma ação pontual que ocorreu no passado, e serve como o ponto de referência para a notícia.
(E) Incorreta: "Iria" é um futuro do pretérito, indicando uma ação que iria começar no futuro, a partir de um ponto no passado, e não uma ação que já havia acontecido antes. A armadilha aqui é que "iria começar" e "passaria a ter" se referem a expectativas futuras a partir do passado, não a um fato anterior ao passado narrado.

Fonte: FCC TRT-12 2023 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.

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