Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 4)
O gavião
Gente olhando para o céu: não é mais disco voador. Disco voador perdeu o cartaz com tanto satélite beirando o sol e a lua.
Olhamos todos para o céu em busca de algo mais sensacional e comovente — o gavião malvado, que mata pombas.
Retornamos assim à contemplação de um drama bem antigo, e há o partido das pombas e o partido do gavião. Os pombistas ou pombeiros (qualquer palavra é melhor que "columbófilo") querem matar o gavião. Os amigos deste dizem que ele não é malvado; na verdade come a sua pombinha com a mesma inocência com que a pomba come seu grão de milho.
Não tomarei partido: admiro a túrgida* inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Exupéry**, "a verdade do gavião", mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador.
Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem. A vida é rapina. A verdade é que não posso mais falar de aves: dei os meus passarinhos. Perdi os cantos do meu canário e os assovios do meu sofrê; meu coração está mais triste, mas está mais leve também.
*túrgida = intumescida, dilatada, cheia.
**Antoine de Saint-Exupéry, escritor francês.(Adaptado de: BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960, p. 163-164)
As normas de concordância verbal estão plenamente observadas na frase:
- AAos gaviões e às pombas não costumam faltar a empatia dos que pesam as razões do lado que lhes parecem mais favorável.
- BJá não se ouve os cantos dos passarinhos de que nos desfizemos, mas também já não nos preocupa o que lhes podiam ameaçar.
- CComer pombas ou alvejar gaviões são opções que se apresentam àqueles a quem move a força de bem específicos interesses. (alternativa correta)
- DFazem falta ao autor do texto ouvir tanto os cantos do seu canário como os assovios do sofrê, de cujos encantos já não desfrutam.
- ESempre haverão os que defendem medidas drásticas quando se tratam de poupar as vítimas de uma violenta predação.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Concordância verbal é a regra gramatical que exige que o verbo (a palavra que indica ação, estado ou fenômeno) combine em número (singular ou plural) e pessoa (eu, tu, ele/ela, etc.) com o seu sujeito (quem pratica ou sofre a ação do verbo).
(A) Incorreta: O sujeito do verbo "costumam faltar" é "a empatia" (singular), que aparece depois do verbo. Portanto, o verbo deveria estar no singular: "não costuma faltar a empatia". A expressão "Aos gaviões e às pombas" é objeto indireto, não o sujeito.
(B) Incorreta: Na primeira parte, o verbo "ouve" deveria concordar com o sujeito paciente "os cantos dos passarinhos" (plural), formando "já não se ouvem os cantos". Na segunda parte, "o que lhes podiam ameaçar", o sujeito de "podiam ameaçar" é "o que" (referindo-se a algo singular), então o correto seria "o que lhes podia ameaçar".
(C) Correta: O sujeito de "são" é "Comer pombas ou alvejar gaviões" (dois infinitivos que expressam ideias distintas e têm um predicativo do sujeito no plural, "opções", o que justifica o verbo no plural). O "que" de "que se apresentam" retoma "opções" (plural), então "apresentam" está correto. Por fim, "a força de bem específicos interesses" é o sujeito de "move" (singular), então "move" está correto.
(D) Incorreta: Na segunda parte, "de cujos encantos já não desfrutam", o sujeito implícito de "desfrutam" é o autor (singular), e não os "encantos". Portanto, o correto seria "já não desfruta" (referindo-se ao autor).
(E) Incorreta: O verbo "haver" no sentido de "existir" é impessoal e deve permanecer sempre na 3ª pessoa do singular, então o correto é "Sempre haverá os que defendem". Além disso, a expressão "tratar-se de" também é impessoal e exige o verbo no singular, então o correto é "quando se trata de poupar as vítimas".
Fonte: FCC TRT-12 2023 Conhecimentos Comuns (Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.