Questão nº 2

Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 2)

FCC2023Comum JudiciáriaLíngua Portuguesa
Gabarito: Dver comentário ↓

O gavião

Gente olhando para o céu: não é mais disco voador. Disco voador perdeu o cartaz com tanto satélite beirando o sol e a lua.

Olhamos todos para o céu em busca de algo mais sensacional e comovente — o gavião malvado, que mata pombas.

Retornamos assim à contemplação de um drama bem antigo, e há o partido das pombas e o partido do gavião. Os pombistas ou pombeiros (qualquer palavra é melhor que "columbófilo") querem matar o gavião. Os amigos deste dizem que ele não é malvado; na verdade come a sua pombinha com a mesma inocência com que a pomba come seu grão de milho.

Não tomarei partido: admiro a túrgida* inocência das pombas e também o lance magnífico em que o gavião se despenca sobre uma delas. Comer pombas é, como diria Saint-Exupéry**, "a verdade do gavião", mas matar um gavião no ar com um belo tiro pode também ser a verdade do caçador.

Que o gavião mate a pomba e o homem mate alegremente o gavião; ao homem, se não houver outro bicho que o mate, pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem. A vida é rapina. A verdade é que não posso mais falar de aves: dei os meus passarinhos. Perdi os cantos do meu canário e os assovios do meu sofrê; meu coração está mais triste, mas está mais leve também.

*túrgida = intumescida, dilatada, cheia.
**Antoine de Saint-Exupéry, escritor francês.

(Adaptado de: BRAGA, Rubem. Ai de ti, Copacabana. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1960, p. 163-164)


Ao afirmar, no contexto do último parágrafo, que a vida é rapina, o autor

Resposta comentada

Gabarito Alternativa D

A interpretação de texto exige que se compreenda a ideia central e como as partes do texto se conectam, especialmente quando o autor faz generalizações ou comparações entre diferentes contextos.

(A) Incorreta: O texto não busca dividir, mas sim mostrar uma característica comum (a rapina) que perpassa tanto animais quanto humanos, sem estabelecer uma separação clara entre pacíficos e belicosos como um "marco divisório".
(B) Incorreta: A frase "a vida é rapina" refere-se à natureza predatória e violenta da existência, não a crimes ocultos em momentos de conciliação. O foco é na violência explícita e fundamental.
(C) Incorreta: O autor apresenta a natureza como um ciclo de predação e violência (gavião mata pomba, homem mata gavião, homem encontra seu gavião em outro homem), o que contradiz a ideia de que ela forneça meios para o entendimento.
(D) Correta: O autor primeiro descreve a violência como um princípio natural entre os animais (gavião e pomba) e, em seguida, estende essa ideia à humanidade ao afirmar que "o homem... pode lhe suceder que ele encontre seu gavião em outro homem". A frase "a vida é rapina" generaliza esse princípio de predação e violência para toda a existência, incluindo a humana.
(E) Incorreta: O texto não sugere que a violência humana seja "só nossa" e que a justificamos pela natureza. Pelo contrário, ele observa um princípio de violência (rapina) na natureza e o vê como inerente também às relações humanas, como uma verdade da existência. A armadilha aqui é inverter a lógica: o autor não está criticando uma justificação, mas sim constatando uma realidade que ele vê como universal.

Fonte: FCC TRT-12 2023 Conhecimentos Comuns (Judiciária) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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