Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 5)
Minhas janelas
Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordam de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio de paisagens. Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela. A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas.
Tive muitas janelas, e nenhuma delas mais generosa do que esta de que me despeço na manhã de hoje. Amanhã cedo mudarei de casa, de janela, e até de alma, pois o meu modo de ver e viver já não será o mesmo, fatalmente. Não falo de mim, mas do que foram as janelas por meu intermédio.
Quando era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembleia permanente, o canto intermitente da água no tanque, o azul sem morte. Só à medida que ganhamos corpo e tempo vamos aprendendo a conhecer a importância das janelas.
Vou perder dentro de poucas horas esta magnífica janela, incomparavelmente a melhor peça deste apartamento, e a mais vivificante de todas as janelas em que trabalhei e morei. Peço pois um minuto de silêncio, em derradeira homenagem aos meus telhados de limo lá embaixo, minhas amendoeiras, meus pinheiros, minhas gaivotas, meu mar, minhas ilhas, minhas vagas, meus dias de ressaca, meus dias de calma, meus barcos. Dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 207-208)
Está plenamente adequado o emprego do elemento sublinhado na frase:
- AAs paisagens de que me reporto não são quaisquer umas: apenas as das minhas janelas.
- BAs visões externas com cujas nos comprazemos dizem algo da nossa interioridade.
- COs elementos do cenário ao qual se interessa o cronista dão-lhe motivos para escrever.
- DHá encantos da natureza pelos quais ninguém, em sã consciência, pode ou deve ignorar.
- EPelas janelas de uma casa abrem-se paisagens de cuja beleza muitos se impregnarão. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O uso correto de pronomes relativos (como "que", "cujo", "onde", "o qual") e suas preposições depende da regência do verbo ou do nome da oração subordinada. A preposição que acompanha o pronome relativo é exigida pelo termo regente dessa oração.
- (A) Incorreta: O verbo "reportar-se" rege a preposição "a" ou "sobre", não "de". O correto seria "As paisagens a que me reporto" ou "As paisagens sobre as quais me reporto".
- (B) Incorreta: O pronome "cujo(a)" indica posse e concorda com o substantivo que o segue, não com o antecedente. Além disso, o verbo "comprazer-se" rege a preposição "com". O correto seria "As visões externas com as quais nos comprazemos".
- (C) Incorreta: O verbo "interessar-se" rege a preposição "por". O correto seria "Os elementos do cenário pelos quais se interessa o cronista".
- (D) Incorreta: O verbo "ignorar" é transitivo direto, não exigindo preposição. O correto seria "Há encantos da natureza que ninguém... pode ou deve ignorar".
- (E) Correta: O verbo "impregnar-se" rege a preposição "de". O pronome "cuja" estabelece a relação de posse ("a beleza das paisagens") e concorda em gênero e número com "beleza". A construção "de cuja beleza" está plenamente adequada, significando "da beleza das quais".
Fonte: FCC TRT-12 2023 Conhecimentos Comuns (Administrativa) (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.