Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-12 2023 (nº 1)
Minhas janelas
Em geral as pessoas possuíram automóveis e se recordam de todos eles. Eu possuí janelas e ajuntei para a lembrança um sortido patrimônio de paisagens. Minha primeira providência em casa nova é instalar meus instrumentos de trabalho ao lado duma janela. A janela também faz parte do equipamento profissional do escritor. Sem janelas, a literatura seria irremediavelmente hermética, feita de incompreensíveis pedaços de vida, lágrimas e risos loucos, fúrias e penas.
Tive muitas janelas, e nenhuma delas mais generosa do que esta de que me despeço na manhã de hoje. Amanhã cedo mudarei de casa, de janela, e até de alma, pois o meu modo de ver e viver já não será o mesmo, fatalmente. Não falo de mim, mas do que foram as janelas por meu intermédio.
Quando era menino, nunca olhei pela janela, mas fazia parte da paisagem dum quintal, doce e áspero a um só tempo, com seus mamoeiros bicados pelos passarinhos, as galinhas neuróticas em assembleia permanente, o canto intermitente da água no tanque, o azul sem morte. Só à medida que ganhamos corpo e tempo vamos aprendendo a conhecer a importância das janelas.
Vou perder dentro de poucas horas esta magnífica janela, incomparavelmente a melhor peça deste apartamento, e a mais vivificante de todas as janelas em que trabalhei e morei. Peço pois um minuto de silêncio, em derradeira homenagem aos meus telhados de limo lá embaixo, minhas amendoeiras, meus pinheiros, minhas gaivotas, meu mar, minhas ilhas, minhas vagas, meus dias de ressaca, meus dias de calma, meus barcos. Dou adeus para o meu mar noturno, invisível e trágico, e adeus para este mar cheio de luz.
(Adaptado de: CAMPOS, Paulo Mendes. Os sabiás da crônica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021, p. 207-208)
Ao considerar a importância das janelas em sua vida, o cronista afirma que elas lhe dão acesso tanto à paisagem externa como à sua própria alma. Essa mesma concomitância está expressa quando ele
- Aenumera todos os componentes da paisagem da qual está agora se despedindo.
- Brevela que todo escritor tem necessidade de contar com a proximidade de seus instrumentos.
- Cdiz que em sua infância ele próprio já fazia parte da paisagem, dispensando as janelas.
- Dse lembra de que ouvia o canto intermitente da água no tanque e olhava o azul do céu.
- Ese despede de seu mar noturno e invisível, ao despedir-se do mar que está iluminado. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
O texto fala sobre como as janelas funcionam como um portal, conectando o mundo exterior com o universo interior do escritor. Essa conexão dupla é o ponto central.
(A) Incorreta: A enumeração da paisagem é uma descrição externa, não a conexão com a alma.
(B) Incorreta: A necessidade dos instrumentos é sobre o trabalho, não sobre a introspecção ou a paisagem.
(C) Incorreta: A infância é apresentada como um tempo anterior à percepção da importância das janelas.
(D) Incorreta: Ouvir a água e ver o céu são elementos da paisagem externa, não a conexão com a alma.
(E) Correta: A despedida do mar noturno e invisível (representando o interior, o mistério, a alma) junto com o mar iluminado (representando o exterior, a clareza, a paisagem) demonstra essa dualidade de acesso, tanto à alma quanto à paisagem externa, que o cronista menciona. A armadilha aqui é focar apenas na despedida da paisagem visível e esquecer que o "mar noturno e invisível" representa a dimensão interna, a alma.
Fonte: FCC TRT-12 2023 Conhecimentos Comuns (Administrativa) (Caderno Tipo 002). Reproduzida para fins de estudo.