Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-11 2017 (nº 14)
Freud uma vez recebeu carta de um conhecido pedindo conselhos diante de uma escolha importante da vida. A resposta é surpreendente: para as decisões pouco importantes, disse ele, vale a pena pensar bem. Quanto às grandes escolhas da vida, você terá menos chance de errar se escolher por impulso.
A sugestão parece imprudente, mas Freud sabia que as razões que mais pesam nas grandes escolhas são inconscientes, e o impulso obedece a essas razões. Claro que Freud não se referia às vontades impulsivas proibidas. Falava das decisões tomadas de “cabeça fria”, mas que determinam o rumo de nossas vidas. No caso das escolhas profissionais, as motivações inconscientes são decisivas. Elas determinam não só a escolha mais “acertada”, do ponto de vista da compatibilidade com a profissão, como são também responsáveis por aquilo que chamamos de talento. Isso se decide na infância, por mecanismos que chamamos de identificações. Toda criança leva na bagagem alguns traços da personalidade dos pais. Parece um processo de imitação, mas não é: os caminhos das identificações acompanham muito mais os desejos não realizados dos pais do que aqueles que eles seguiram na vida.
Junto com as identificações formam-se os ideais. A escolha profissional tem muito a ver com o campo de ideais que a pessoa valoriza. Dificilmente alguém consegue se entregar profissionalmente a uma prática que não represente os valores em que ela acredita.
Tudo isso está relacionado, é claro, com a almejada satisfação na vida profissional. Mas não vamos nos iludir. Satisfação no trabalho não significa necessariamente prazer em trabalhar. Grande parte das pessoas não trabalharia se não fosse necessário. O trabalho não é fonte de prazer, é fonte de sentido. Ele nos ajuda a dar sentido à vida. Só que o sentido da vida profissional não vem pronto: ele é o efeito, e não a premissa, dos anos de prática de uma profissão. Na contemporaneidade, em que se acredita em prazeres instantâneos, resultados imediatos e felicidade instantânea, é bom lembrar que a construção de sentido requer tempo e persistência. Por outro lado, quando uma escolha não faz sentido o sujeito percebe rapidamente.
(Adaptado de KEHL, Maria Rita. Disponível em: rae.fgv.br /sites/rae.fgv.br/files/artigos)
A escolha profissional tem muito a ver com o campo de ideais que a pessoa valoriza. Dificilmente alguém consegue se entregar profissionalmente a uma prática que não represente os valores em que ela acredita. (3º parágrafo)
Consideradas as relações de sentido, as duas frases acima podem ser articuladas em um único período, fazendo-se as devidas alterações na pontuação e entre minúscula e maiúscula, com o uso, no início, de:
- AApesar de
- BNa medida em que (alternativa correta)
- CEm contrapartida
- DConquanto
- EEm detrimento de
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: Conjunções são palavras ou expressões que conectam orações ou partes de uma frase, estabelecendo entre elas diferentes tipos de relações de sentido, como causa, tempo, condição, oposição, entre outras.
- (A) Incorreta: "Apesar de" introduz uma ideia de concessão ou contraste. No contexto, a segunda frase não contrasta com a primeira, mas sim a explica ou a justifica.
- (B) Correta: "Na medida em que" é uma locução conjuntiva causal ou proporcional. Ela estabelece uma relação de causa ou de explicação, indicando que a dificuldade em se entregar profissionalmente (segunda oração) é uma consequência ou uma razão que decorre do fato de a escolha profissional estar ligada aos ideais (primeira oração).
- (C) Incorreta: "Em contrapartida" expressa oposição ou contraste. As duas frases não apresentam ideias opostas, mas sim complementares ou de causa e consequência.
- (D) Incorreta: "Conquanto" é uma conjunção concessiva, sinônimo de "embora" ou "ainda que". Assim como "Apesar de", introduz uma ideia de contraste que não se aplica à relação lógica entre as duas frases. A armadilha aqui é confundir uma relação de causa/explicação com uma de oposição.
- (E) Incorreta: "Em detrimento de" significa "em prejuízo de" ou "à custa de". Essa locução não estabelece uma relação lógica ou de sentido adequada entre as duas orações apresentadas.
Fonte: FCC TRT-11 2017 Técnico Judiciário – Área Apoio Especializado – Especialidade: Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.