Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-1 2025 (nº 8)
[Poetas moços e velhos poetas]
Hoje vos entreterei, caros leitores, com certo aspecto da vida literária. Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber pedidos de outros que também fazem mas estão na casa dos vinte. Parece que é esse um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opinião sobre os vagidos do talento.
A coisa se dá assim: o moço apresenta-se confiante, munido de seus versos; o "mestre" responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: "Escreva sempre, meu filho". A isto se chama vida literária.
Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-lo a rumo certo? A vida responde a tudo isso repetindo a situação: todos os dias moços fazem consultas e todos os dias os "maduros" atendem com indicações, conselhos, receitas de poesia.
É certo que cinco ou dez anos depois a receita foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja não apenas esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele não o é. Na força do adulto, vinga-se o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres da poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma "carta ao jovem poeta" deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Passeios na ilha. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 113-114)
São momentos diferentes que exprimem duas atitudes opostas:
- Ajá atingiram a idade madura // ser solicitado pelos mais novos.
- Bo moço apresenta-se confiante // o mestre responde benévolo.
- Cservir à hesitação do jovem // dissolvê-la em certeza.
- Dos moços fazem consultas // negando o que adorara. (alternativa correta)
- Enão apenas esquecido, mas negado // ataca-se o mestre.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O conceito-chave aqui é identificar na passagem dois momentos distintos no tempo que apresentem atitudes ou comportamentos que são diretamente contrários ou opostos um ao outro. É preciso notar a evolução ou a mudança de postura descrita no texto.
(A) Incorreta: Essas frases descrevem uma característica dos poetas mais velhos ("atingiram a idade madura") e uma consequência dessa característica ("ser solicitado pelos mais novos"). Não são atitudes opostas, mas sim aspectos relacionados à mesma situação.
(B) Incorreta: Embora descrevam ações de pessoas diferentes no mesmo momento inicial da interação, as atitudes ("confiante" e "benévolo") não são opostas, mas complementares dentro do cenário de um encontro.
(C) Incorreta: "Servir à hesitação do jovem" é a ação ou propósito, e "dissolvê-la em certeza" é o resultado esperado. Não são atitudes opostas, mas sim um problema e sua potencial solução, ou um estado inicial e um estado desejado.
(D) Correta: "Os moços fazem consultas" representa o momento inicial de deferência, busca por orientação e, implicitamente, admiração pelo mestre. "Negando o que adorara" descreve um momento posterior, anos depois, onde o jovem poeta (agora adulto) rejeita e nega aquilo que um dia admirou e buscou. São dois momentos distintos no tempo e duas atitudes claramente opostas (admiração/busca vs. negação/rejeição).
(E) Incorreta: As duas frases ("não apenas esquecido, mas negado" e "ataca-se o mestre") descrevem a mesma atitude negativa e de rejeição em relação ao mestre, ocorrendo no mesmo momento posterior. Não expressam atitudes opostas, mas sim a mesma atitude reforçada. A armadilha aqui é que, embora sejam atitudes negativas, elas não se opõem uma à outra, mas sim à atitude inicial de admiração.
Fonte: FCC TRT-1 2025 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.