Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRT-1 2025 (nº 6)
[Poetas moços e velhos poetas]
Hoje vos entreterei, caros leitores, com certo aspecto da vida literária. Aqueles que fazem versos e já atingiram a idade madura costumam receber pedidos de outros que também fazem mas estão na casa dos vinte. Parece que é esse um dos prêmios (muito discutíveis) de envelhecer: ser solicitado pelos mais novos a dar opinião sobre os vagidos do talento.
A coisa se dá assim: o moço apresenta-se confiante, munido de seus versos; o "mestre" responde benévolo, paciente, minucioso, interessado em pormenores biográficos, ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia: "Escreva sempre, meu filho". A isto se chama vida literária.
Sendo a literatura fenômeno socializante por excelência, contudo permanece fenômeno individual quanto à produção. E eu vos pergunto: pode a experiência do mais idoso servir à hesitação do jovem, dissolvê-la em certeza, encaminhá-lo a rumo certo? A vida responde a tudo isso repetindo a situação: todos os dias moços fazem consultas e todos os dias os "maduros" atendem com indicações, conselhos, receitas de poesia.
É certo que cinco ou dez anos depois a receita foi esquecida e o mestre com ela. Sucede também que após esse lapso de tempo o mestre seja não apenas esquecido, mas negado. Ataca-se o mestre, descobre-se que ele não o é. Na força do adulto, vinga-se o homem das debilidades do período de crescimento físico e intelectual, negando o que adorara. Os mestres da poesia não escapam a essa contingência, e ao escreverem uma "carta ao jovem poeta" deveriam meditar bem na escolha das palavras e no prazo de validade do sortilégio.
(Adaptado de: ANDRADE, Carlos Drummond de. Passeios na ilha. São Paulo: Cosac Naify, 2011, p. 113-114)
Na relação entre poetas de diferentes gerações, o autor do texto considera
- Aa perene e irredutível submissão dos poetas jovens aos mestres desse gênero literário.
- Ba vaidade que os veteranos experimentam ao serem tão respeitosamente consultados. (alternativa correta)
- Co franco destemor de que se valem os poetas experientes para acusar os vícios dos jovens.
- Do alento sincero que os mais velhos imprimem à arte promissora dos mais jovens.
- Ea rara contingência de um jovem estreante acatar os aconselhamentos dos mais velhos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
O texto aborda a relação entre poetas jovens e experientes, focando nas motivações e na dinâmica dessa interação, especialmente na busca de conselhos e na recepção desses.
(A) Incorreta: O texto afirma que, anos depois, o mestre é "esquecido" e "negado", o que contradiz a ideia de uma submissão "perene e irredutível".
(B) Correta: O segundo parágrafo descreve o "mestre" como "ocultando sua vaidade sob um verniz de simpatia" ao ser consultado, indicando claramente a presença da vaidade nos veteranos.
(C) Incorreta: O autor descreve o "mestre" como "benévolo, paciente, minucioso", e não como alguém que acusa os vícios dos jovens com destemor. Ele age com uma "simpatia" aparente.
(D) Incorreta: Embora os mais velhos ofereçam "alento" ("Escreva sempre, meu filho"), o texto imediatamente qualifica essa atitude como um "verniz de simpatia" que oculta a vaidade, questionando a sinceridade plena desse alento. A armadilha aqui é focar apenas na aparência do conselho e ignorar a motivação subjacente que o autor revela.
(E) Incorreta: O texto indica que "todos os dias moços fazem consultas e todos os dias os 'maduros' atendem", sugerindo que a busca e o acatamento inicial dos conselhos são comuns, não uma "rara contingência".
Fonte: FCC TRT-1 2025 Técnico Judiciário - Área Administrativa (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.