Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2025 (nº 5)
Interativo demais
Antigamente, os escritores eram admirados apenas pelo que publicavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virginia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.
Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao público o que prometiam – sua arte – e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.
Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condição de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as ferramentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na internet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.
Na frase Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, a forma verbal pipocavam expressa
- Aum comportamento que começou no passado e se estende até o presente.
- Bum processo pontual e concluído no passado, reforçando o aspecto factual.
- Cuma ação habitual, coerente com a ideia de algo recorrente no tempo. (alternativa correta)
- Duma hipótese não realizada, expressando irrealidade do fato.
- Euma atividade subordinada à ideia de simultaneidade com o presente.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O aspecto verbal mostra como a ação do verbo acontece no tempo: se é algo que durou, se repetiu, se foi pontual, etc. O Pretérito Imperfeito do Indicativo (como em "pipocavam") é usado para descrever ações que eram contínuas, habituais ou que se repetiam em um período no passado.
- (A) Incorreta: O Pretérito Imperfeito descreve ações que ocorreram no passado, sem indicar que elas continuam até o presente.
- (B) Incorreta: Um processo pontual e concluído no passado seria expresso pelo Pretérito Perfeito Simples (ex: "pipocaram"). O Imperfeito ("pipocavam") sugere duração, continuidade ou repetição, não um evento único e finalizado.
- (C) Correta: O verbo "pipocavam" está no Pretérito Imperfeito do Indicativo, que é a forma verbal adequada para descrever ações que aconteciam de forma repetida ou habitual em um período passado, como o surgimento frequente de biografias.
- (D) Incorreta: O Pretérito Imperfeito não é usado para expressar hipóteses não realizadas ou irrealidade do fato; para isso, usam-se outros modos e tempos verbais.
- (E) Incorreta: A ação de "pipocavam" está situada no passado e não expressa simultaneidade com o presente, mas sim com outro evento ou período no passado.
Fonte: FCC TRF4 2025 Conhecimentos Comuns (Técnico TRF4 2025) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.