Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2025 (nº 1)
Interativo demais
Antigamente, os escritores eram admirados apenas pelo que publicavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virginia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.
Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao público o que prometiam – sua arte – e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.
Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condição de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as ferramentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na internet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.
O termo demais, do título, antecipa uma reflexão crítica que se desenvolve ao longo do texto, sobretudo em relação à
- Amaneira ativa de fruição artística no passado, considerado pela autora como avançada diante das novas exigências do público digital.
- Bresistência de autores e artistas em se adaptarem ao novo modelo comunicacional, o que os afasta do público contemporâneo e compromete sua relevância cultural.
- Csubstituição do contato direto com a arte por experiências filtradas por algoritmos, o que empobrece a relação entre criador e consumidor.
- Dperda de limites entre público e privado, decorrente do uso exacerbado de tecnologias de interatividade, que compromete a integridade da imagem e da produção artística. (alternativa correta)
- Ebanalização dos produtos culturais tradicionais, incapazes de competir com o dinamismo e a velocidade das novas plataformas digitais.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
O sentido global do texto é a ideia principal que o autor quer transmitir, a mensagem central que une todas as partes do texto. Para identificá-lo, é preciso compreender o tema e a tese defendida ao longo de toda a leitura.
- (A) Incorreta: O texto não considera a fruição artística do passado como "avançada" para as novas exigências, mas sim como um período de respeito e integridade que foi perdido.
- (B) Incorreta: O texto não discute a resistência de autores ou artistas em se adaptar, mas sim as consequências negativas da interatividade para sua imagem e obra.
- (C) Incorreta: Embora a interatividade possa envolver algoritmos, o foco principal do texto é a perda de controle sobre a imagem e a obra, a deturpação da informação e a invasão da privacidade, e não a filtragem por algoritmos como o problema central.
- (D) Correta: O texto critica o excesso de interatividade que levou à "maledicência e promiscuidade virtual", à perda de controle sobre a imagem e o trabalho (exemplos de fofocas e atribuições erradas), o que claramente aponta para a perda de limites entre o público e o privado e o comprometimento da integridade artística.
- (E) Incorreta: O texto não aborda a banalização dos produtos culturais por incapacidade de competir, mas sim a deturpação e a perda de controle sobre eles e seus criadores devido à interatividade excessiva.
Fonte: FCC TRF4 2025 Conhecimentos Comuns (Técnico TRF4 2025) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.