Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2025 (nº 2)
Interativo demais
Antigamente, os escritores eram admirados apenas pelo que publicavam em livros e revistas. Quando algum leitor gostava muito do que havia lido e queria compartilhar com alguém, dava o livro de presente ou emprestava o seu. O conteúdo mantinha-se preservado, assim como seu autor. Ninguém divulgava um texto de Somerset Maugham como sendo de Virginia Woolf, ninguém infiltrava parágrafos do Rubem Braga num texto do Sartre, ninguém criava novos finais para os poemas de Cecília Meireles. O escritor e sua obra eram respeitados, e os leitores podiam confiar no que estavam consumindo.
Além disso, artistas de cinema, músicos e esportistas eram mitos a cuja intimidade não se tinha acesso. Marilyn Monroe, Frank Sinatra e Ayrton Senna entregavam ao público o que prometiam – sua arte – e o resto era especulação. Mais tarde pipocavam biografias, saciando a curiosidade do público, mas o legado desses ícones se manteve para sempre incorruptível: eram os donos legítimos de sua imagem, de sua voz e de suas palavras.
Era uma época em que aceitávamos pacificamente nossa condição de plateia, até que se inventou o conceito de interatividade e as ferramentas para exercê-la. Por um lado, a sociedade se democratizou, todos passaram a ser ouvidos, diminuiu a distância entre patrões e empregados, produtores e consumidores: as relações ficaram mais funcionais; por outro, o uso dessas ferramentas acabou involuindo para a maledicência e a promiscuidade virtual. Hoje ninguém consegue mais ter controle sobre sua imagem ou seu trabalho. Um ator de televisão diz "oi" para uma amiga na rua e na manhã seguinte correm notícias de que estão de casamento marcado. Uma cantora cancela um show porque está afônica e logo surge o boato de que tentou suicídio. Um escritor publica um texto no jornal e três segundos depois o mesmo texto está na internet, atribuído a Toulouse-Lautrec, que nem escritor foi.
Do ponto de vista da coesão textual, a construção Por um lado [...] por outro (3º parágrafo) tem como função:
- AContrapor o passado idealizado à presente degradação social.
- BEstabelecer oposição entre os benefícios e os prejuízos da interatividade. (alternativa correta)
- CRetomar uma enumeração iniciada no parágrafo anterior.
- DEnfatizar a importância de ouvir todas as vozes da sociedade.
- EIntroduzir uma sequência de ações contrárias à modernização.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Coesão textual é a forma como as partes de um texto se conectam, garantindo que as ideias fluam de maneira lógica e compreensível. Os conectivos e articuladores são palavras ou expressões que estabelecem essas relações, como adição, oposição, causa, consequência, entre outras.
- (A) Incorreta: Embora o texto faça uma contraposição geral entre passado e presente, a expressão "Por um lado... por outro" no terceiro parágrafo não contrasta o passado com o presente, mas sim dois aspectos da interatividade no presente.
- (B) Correta: A expressão "Por um lado" introduz os aspectos positivos da interatividade (democratização, relações funcionais), enquanto "por outro" introduz os aspectos negativos (maledicência, promiscuidade virtual), estabelecendo uma clara oposição entre benefícios e prejuízos.
- (C) Incorreta: A expressão "Por um lado... por outro" inicia uma nova discussão sobre os efeitos da interatividade, não retomando uma enumeração do parágrafo anterior, que tratava da intimidade de artistas.
- (D) Incorreta: "Ouvir todas as vozes da sociedade" é um dos benefícios mencionados por "um lado", mas não é a função principal do par de conectivos, que é apresentar os dois lados (prós e contras) da interatividade.
- (E) Incorreta: A expressão não introduz ações contrárias à modernização, mas sim as consequências (positivas e negativas) da interatividade, que é um fruto da modernização.
Fonte: FCC TRF4 2025 Conhecimentos Comuns (Técnico TRF4 2025) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.