Questão nº 6
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2025 (nº 6)
[Autobiografia de um historiador]
Não escrevi esta minha biografia com o espírito de confissão tão vendável hoje em dia, em parte porque a única justificativa para essa viagem em torno do ego é a genialidade – não sou nem um santo Agostinho nem um Rousseau – e em parte porque nenhum autobiógrafo vivo seria capaz de contar sua verdade particular sobre as coisas que envolvem outras pessoas vivas sem ferir injustificavelmente os sentimentos de algumas delas.
Este livro também não é uma apologia da vida do autor. Se o leitor não quiser entender o século XX, deve ler as autobiografias daqueles que se justificam a si mesmos, advogados de sua própria defesa, e as de seu reverso, os pecadores arrependidos.
Estes escritos não são a história do mundo ilustrada pelas experiências de um indivíduo, mas a história do mundo dando forma às experiências de um indivíduo, ou melhor, oferecendo uma gama de escolhas sempre limitadas, com as quais os homens fazem suas vidas, não nas circunstâncias escolhidas por eles, e sim nas circunstâncias diretamente proporcionadas pelo mundo em volta deles.
Busquei juntar meus temas de modo coerente, com alguma racionalização histórica. Outros historiadores poderão interessar-se por esse aspecto mais profissional do meu livro. Espero, entretanto, que os demais o leiam como uma introdução ao extraordinário século XX, como um relato que é também o itinerário de um ser humano cuja vida não poderia ter ocorrido em outro século.
Contrastando com os vários alertas sobre o que sua autobiografia não é, não pode ou não deseja ser, há no texto um reconhecimento afirmativo do autor quanto
- Aaos aspectos mais discretamente confessionais que ele preferiu manter em nome da veracidade dos fatos.
- Bà justificativa central de seu propósito de escritor autobiógrafo, escorada no desejo de expiar algumas culpas.
- Cà efetiva interação que ele, como indivíduo, manteve entre suas vivências e as circunstâncias do século em que as viveu. (alternativa correta)
- Dao enfrentamento das inevitáveis incoerências que um autobiógrafo acaba por imputar aos seus métodos de historiador.
- Eà convicção de fornecer aos leigos o prazer de encontrar numa autobiografia uma síntese cabal da história do século XX.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é identificar, em um texto que usa a negação para definir o que não é, qual é a única afirmação positiva que o autor faz sobre sua obra.
- A) Incorreta: O autor nega explicitamente o "espírito de confissão" no primeiro parágrafo, não mantendo aspectos confessionais.
- B) Incorreta: O autor afirma que o livro "não é uma apologia da vida do autor" e não menciona desejo de expiar culpas, rejeitando o tom de justificação ou arrependimento.
- C) Correta: O terceiro parágrafo afirma que o livro é "a história do mundo dando forma às experiências de um indivíduo" e o quarto parágrafo reforça que sua vida "não poderia ter ocorrido em outro século", indicando a profunda conexão entre suas vivências e o contexto histórico.
- D) Incorreta: O texto não aborda incoerências nos métodos de historiador do autor; pelo contrário, ele busca "racionalização histórica".
- E) Incorreta: O autor espera que o livro seja lido como uma "introdução" ao século XX, não uma "síntese cabal" (completa e definitiva), e a ênfase é na forma como o mundo moldou o indivíduo, não em uma ilustração completa da história. A armadilha aqui é confundir "introdução" com "síntese cabal" e superestimar o papel da autobiografia como fonte histórica completa.
Fonte: FCC TRF4 2025 Conhecimentos Comuns (Analista TRF4 2025) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.