Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 2)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 6, considere o texto abaixo.
O motorista do 8-100
Fui convidado por um colega da redação de jornal, outro dia, a ver um belo espetáculo. Que eu estivesse pela manhã bem cedo junto ao último edifício da Avenida Rio Branco para assistir à coleta de lixo. Fui. Vi chegar o caminhão 8-100 da Limpeza Urbana e saltarem os ajudantes que se puseram a carregar e despejar as latas de lixo. Enquanto isso, que fazia o motorista? O mesmo de toda manhã. Pegava um espanador e um pedaço de flanela, e fazia o seu carro ficar rebrilhando de beleza.
É costume dizer que a esperança é a última que morre. Nisso está uma das crueldades da vida: a esperança vive à custa de mutilações. Vai minguando e secando devagar, se despedindo dos pedaços de si mesma, se apequenando e empobrecendo, e no fim é tão mesquinha e despojada que se reduz ao mais elementar instinto de sobrevivência e ao conformismo.
Esse motorista, que limpa seu caminhão, não é um conformado, é o herói silencioso que lança um protesto superior. A vida o obriga a catar lixo e imundície; ele aceita a sua missão, mas a supera com esse protesto de beleza e dignidade. Muitos recebem com a mão suja os bens mais excitantes e tentadores da vida; e as flores que vão colhendo no jardim de uma existência fácil logo têm, presa em seus dedos frios, uma corrupção que as desmerece e avilta. O motorista do caminhão 8-100 parece dizer aos homens da cidade: “O lixo é vosso: meus são estes metais que brilham, meus são estes vidros que esplendem, minha é esta consciência limpa”.
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. O homem rouco. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1963, p. 145-146)
Ao se deter no tema da esperança, no 2o parágrafo do texto, o autor mostra-se convencido de que esse sentimento
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6.
- Acomprova, em cada uma de nossas experiências, o sentido e o valor que lhe reconhece o referido dito popular.
- Btraz consigo a crueldade singular de se tornar mais ativo em nós na exata proporção em que vai nos iludindo.
- Cdegrada-se num longo e contínuo processo, ao fim do qual seu reducionismo só deixa lugar para o conformismo. (alternativa correta)
- Dalimenta-se do conformismo que há em nós para se instalar desde cedo como uma espécie de precavida sabedoria.
- Edeteriora-se a cada vez que o imaginamos mais consistente, razão pela qual nos vamos iludindo de modo progressivo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O autor, no segundo parágrafo, descreve a esperança como algo que se degrada e diminui com o tempo, tornando-se fraca e, no fim, levando ao conformismo.
A) Incorreta: O texto não comprova o dito popular; pelo contrário, ele o reinterpreta de forma negativa, mostrando a "crueldade" por trás da ideia de esperança.
B) Incorreta: O autor descreve a esperança como algo que "vai minguando e secando", ou seja, tornando-se menos ativa e não mais ativa.
C) Correta: O texto afirma que a esperança "Vai minguando e secando devagar, se despedindo dos pedaços de si mesma, se apequenando e empobrecendo, e no fim é tão mesquinha e despojada que se reduz ao mais elementar instinto de sobrevivência e ao conformismo", descrevendo um processo de degradação contínuo que culmina no conformismo.
D) Incorreta: O texto indica que a esperança se reduz ao conformismo, não que ela se alimenta dele para se tornar sabedoria. É um resultado, não uma fonte de força ou sabedoria.
E) Incorreta: A deterioração da esperança, segundo o texto, é um processo intrínseco e contínuo ("vai minguando e secando devagar"), e não algo que acontece "a cada vez que o imaginamos mais consistente".
Fonte: FCC TRF4 2019 Analista Judiciário - Área Judiciária - Especialidade Oficial de Justiça Avaliador Federal (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.