Questão nº 1
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRF4 2019 (nº 1)
O poeta, quanto mais individual, mais universal, pois o homem, qualquer que seja o meio e a época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos.
Se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando alunos dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: "O que é poesia? Por que se tornou poeta?". A poesia é destas coisas que a gente faz mas não diz.
Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras (em vez de associações de ideias, associações de imagens; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna). Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo. Vem logo o trabalho de corte, pois noto o que estava demais. Coisas que pareciam bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema), tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema.
Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com um cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da criação. Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos dezessete anos.
(Adaptado de: QUINTANA, Mario. "Carta". Melhores poemas. São Paulo: Global Editora, 2005, edição digital)
O autor
- Aexalta a nobreza da poesia ao compará-la, de forma inusitada, à altivez de um cavalo.
- Blamenta que a perda da memória dificulte a concretização de poemas inéditos.
- Cenaltece professores que estimulam os alunos a entrevistá-lo com ideias predefinidas sobre o fazer poético.
- Dassinala a tendência da poesia moderna de privilegiar as associações de imagens. (alternativa correta)
- Edefende a ideia de que, seguidas as diretrizes corretas, todos podem fazer poesia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A interpretação de texto busca identificar o que o autor afirma ou sugere, extraindo as informações diretamente do que foi escrito.
(A) Incorreta: Embora o autor compare o poema a um cavalo, a razão é a sua essência ("nada de mais nem nada de menos"), e não uma exaltação genérica da "nobreza" ou "altivez". A comparação serve para ilustrar a busca pela forma perfeita e essencial, sem excessos.
(B) Incorreta: O autor menciona que relê o papel "já esquecido de tudo" como parte do processo de edição, o que lhe permite um olhar objetivo para cortar o que é desnecessário. Não é uma lamentação, mas uma etapa útil da criação.
(C) Incorreta: O autor expressa tédio e considera a situação "insustentável" quando alunos vêm com perguntas predefinidas, atribuindo isso à "inocência ou maldade dos professores", o que indica desaprovação, não enaltecimento.
(D) Correta: No terceiro parágrafo, o autor afirma explicitamente: "A esta imagem respondem outras (em vez de associações de ideias, associações de imagens; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna)." Isso confirma que ele assinala essa tendência.
(E) Incorreta: O texto enfatiza a dificuldade, a "luta constante" e a incerteza do processo poético, além de afirmar que "A poesia é destas coisas que a gente faz mas não diz", o que contradiz a ideia de que qualquer um pode fazer poesia seguindo diretrizes.
Fonte: FCC TRF4 2019 Analista Judiciário - Área Apoio Especializado - Especialidade Sistemas de Tecnologia da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.