Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC TRE-PR 2017 (nº 4)
Em um marco estritamente institucionalista, pode-se dizer que república é uma forma de governo que se distingue da forma monárquica. Tal distinção deve-se ao fato de que o fundamento do poder nas repúblicas não está associado a governo unipessoal e à sucessão dinástica, tal como nas monarquias, invariavelmente governadas por casas reais. Ainda que, ao longo do século 20 − e mesmo no início do 21 −, o termo "república" tenha sido utilizado na autodenominação de regimes políticos autoritários, de modo geral a ideia contemporânea de república aproxima-se da de democracia, posto que está associada à soberania popular, exercida por meio da participação em eleições regulares, livres, competitivas e extensivas a todos os postos politicamente relevantes. A tais traços devem ser acrescentadas a distinção e a separação entre teologia e política.
A ideia de república como forma de governo que se constitui como negação da forma monárquica ganhou consistência a partir da emergência das duas revoluções republicanas modernas, em fins do século 18. Embora suas origens, durações e efeitos tenham sido distintos, tanto a Revolução Americana (1776) como a Revolução Francesa (1789) tiveram imenso papel na afirmação de uma forma de governo diversa da tradição monárquica europeia. [...] Durante o século 19, tanto na Europa quanto nas antigas periferias coloniais − América do Sul, por exemplo –, vários movimentos democratizantes ou de libertação nacional evocaram a forma republicana, sempre na chave de repúdio à forma monárquica de governo unipessoal com fundamento dinástico. As revoluções europeias de 1830 e 1848, assim como os movimentos nacionais na América Espanhola, estruturaram-se em torno de ideais republicanos, cujo núcleo invariavelmente gravitava em torno da necessidade de afirmar o princípio da soberania popular.
A própria experiência brasileira, tardia com relação à da América do Sul, teve nesse traço um aspecto importante. Entre nós, a defesa da república, durante o século 19, caracterizou-se menos pela defesa de um programa claro de reforma para a sociedade e a política e mais pela simples negação do governo monárquico e pessoal de d. Pedro II. A primeira década republicana no Brasil foi marcada por forte instabilidade e por intensa disputa a respeito do que deveria significar um regime republicano. Coube ao governo do paulista Campos Salles (1898-1902) estabelecer as bases do regime, que vigoraram até 1930.
Considere as afirmações abaixo.
I. A chave conceitual que opõe "república" e "monarquia" como formas de governo não contempla todos os significados possíveis da ideia de república.
II. Regimes políticos autoritários, ao autodenominarem-se "república", buscam mascarar sua natureza autocrática.
III. A expressão "Periferias coloniais" designa estritamente os territórios americanos subordinados à hegemonia europeia − entre eles, os da América do Sul.
É correto considerar como inferência permitida pelo texto o que se lê em
- AI, II e III.
- BI, apenas.
- CII, apenas.
- DI e II, apenas. (alternativa correta)
- EIII, apenas.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
A interpretação de texto exige que o aluno compreenda as informações explícitas e implícitas (inferências lógicas) contidas no material, sem adicionar conhecimentos externos ou fazer suposições não suportadas pelo que foi lido.
(A) Incorreta: Esta alternativa inclui a afirmação III, que não é permitida como inferência pelo texto.
(B) Incorreta: Esta alternativa está incompleta, pois a afirmação II também é uma inferência permitida pelo texto.
(C) Incorreta: Esta alternativa está incompleta, pois a afirmação I também é uma inferência permitida pelo texto.
(D) Correta:
- I. A chave conceitual que opõe "república" e "monarquia" como formas de governo não contempla todos os significados possíveis da ideia de república. O primeiro parágrafo afirma que a distinção da monarquia é um "marco estritamente institucionalista" e, em seguida, menciona que o termo "república" foi usado por regimes autoritários e que sua ideia contemporânea se aproxima da democracia. Isso mostra que a oposição à monarquia é apenas um dos aspectos, não o único ou completo significado.
- II. Regimes políticos autoritários, ao autodenominarem-se "república", buscam mascarar sua natureza autocrática. O texto estabelece um contraste entre a ideia contemporânea de república (associada à democracia, soberania popular, eleições livres) e o uso do termo por "regimes políticos autoritários". A inferência lógica é que, ao usarem um termo com conotações democráticas, esses regimes tentam disfarçar sua verdadeira natureza autocrática.
(E) Incorreta: Esta alternativa inclui apenas a afirmação III, que não é permitida como inferência pelo texto, e desconsidera as afirmações I e II.
Armadilha do distrator (Afirmação III): A afirmação III é um distrator tentador porque o texto menciona a América do Sul como um exemplo de "antigas periferias coloniais". No entanto, a palavra "estritamente" na afirmação III ("designa estritamente os territórios americanos") torna-a incorreta. O texto usa "América do Sul, por exemplo", indicando que é um exemplo, e não que a expressão se refere apenas a esses territórios. Não há no texto elementos que permitam inferir uma exclusividade ou restrição tão forte.
Fonte: FCC TRE-PR 2017 Conhecimentos Comuns (Analista Judiciário) (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.