Questão nº 9

Questão de Língua Portuguesa · FCC TJ-CE 2022 (nº 9)

FCC2022Analista Judiciário - Especialidade Ciência da Computação - Área Sistemas da InformaçãoLíngua Portuguesa
Gabarito: Bver comentário ↓

Atenção: Para responder às questões de números 7 a 10, baseie-se no texto abaixo.

Por que não aprendi a tocar violão? Sempre me constituiu motivo de tristeza e humilhação esta precária musicalidade. Uns tocam piano, existe até quem toque harpa. Eu, nem ao violão me afiz. E não se diga que era pouco o esforço de D. Chiquinha, minha mestra. Afinava, afinava, apertava as cravelhas, dava um dó agudíssimo na prima, depois outro dó grave no bordão...

Eu pegava no violão de luxo que minha madrinha de crisma mandara do Pará, ajeitava-o mal e mal no colo, começava de boa vontade: dum, dum, dum...

— Não! Valha-me Santa Cecília! Segunda! Mude!

E eu: dum, dum, dum...

Ai, música, divina música. D. Chiquinha carpia-se. Tanto sentimento de que ela dava exemplo, tanta devoção empregada à toa. Eu recomeçava, dócil: primeira, segunda...

— D. Chiquinha, fiquei com uma bolha no dedo.

Já não sei como a descobrimos: decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno. Cobrava dez mil-réis por mês e mais o dinheiro do bonde. Duas aulas por semana.

Professora de violão, o seu sonho secreto fora sempre o violino, entretanto. Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário — uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul. Em certos dias de bom humor e segredo, ela pegava comovida o arco e executava ao violino a valsa dos Sinos de Corneville.

Fora desfeita da sorte aquele meu fracasso, porque eu me supunha dotada e alimentava ambições. Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência. Mas tudo neste mundo são vaidades: jamais atingi o tango argentino.

Voltando a D. Chiquinha: o instrumento plebeu que ensinava constituía para minha mestra uma fonte de dissabores. A começar pelo apelido que lhe davam: D. Chiquinha do Violão. Quando alguém o repetia em sua frente, ela corrigia logo, irritada: — Chiquinha do Violão, não senhor. Francisca dos Santos. Violão não é meu dono.

Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava. Para D. Chiquinha, a mais requintada manifestação de arte era a serenata. E dentro desse critério me ensinava visando talvez fazer de mim o que ela já fora em moça — a musa de todos os seresteiros da cidade. Sim, não só objeto passivo de canções e arpejos noturnos mas musa ativa e colaborante. O seresteiro dizia da calçada a sua trova, e lá da penumbra da alcova a donzela tomava do violão e na mesma toada respondia. Eram essas as suas lembranças mais queridas, aqueles duelos musicais, canta tu de lá, canto eu de cá — e entre os dois o grupo desvanecido dos comparsas que ajudavam no acompanhamento.

Nos acompanhamentos, a nossa favorita era a modinha "A mais gentil das praieiras". Dessa eu gostava muito. Porém a mão rebelde não me acompanhava o entusiasmo.

(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel. "A mais gentil das praieiras". Melhores crônicas. São Paulo: Global Editora, 2012, 1ª edição digital)


Professora de violão, o seu sonho secreto fora sempre o violino, entretanto.

O termo sublinhado assinala, no contexto, uma

Este texto de apoio vale também pra questão nº 7, questão nº 8, questão nº 10.

Resposta comentada

Gabarito Alternativa B

Conjunções são palavras que conectam orações ou termos, estabelecendo entre eles uma relação de sentido (valor semântico). O termo entretanto é uma conjunção adversativa, que indica uma ideia contrária ou um contraste.

(A) Incorreta: "Condição" expressa uma circunstância para que algo ocorra (ex: "se", "caso"), o que não é o caso de "entretanto".
(B) Correta: "Oposição" é o valor semântico de conjunções adversativas como "entretanto", indicando um contraste entre o fato de ser professora de violão e seu sonho secreto de tocar violino.
(C) Incorreta: Embora "contradição" e "oposição" sejam termos relacionados, em gramática, "oposição" é o termo técnico mais adequado para descrever a relação estabelecida por conjunções adversativas. "Contradição" sugere uma incompatibilidade lógica mais forte, onde uma coisa anula a outra, o que não ocorre aqui; há um contraste entre a realidade e o desejo, mas não uma anulação.
(D) Incorreta: "Finalidade" indica um objetivo ou propósito (ex: "para que", "a fim de que"), o que não corresponde ao sentido de "entretanto".
(E) Incorreta: "Consequência" expressa o resultado de algo (ex: "portanto", "por isso"), o que não é o significado de "entretanto".

Fonte: FCC TJ-CE 2022 Analista Judiciário - Especialidade Ciência da Computação - Área Sistemas da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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