Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC TJ-CE 2022 (nº 2)
Atenção: Para responder às questões de números 1 a 6, baseie-se no texto abaixo.
Qual é a principal obra que produzem os autores e narradores dos novos gêneros autobiográficos? Um personagem chamado eu. O que todos criam e recriam ao performar as suas vidas nas vitrines interativas de hoje é a própria personalidade.
A autoconstrução de si como um personagem visível seria uma das metas prioritárias de grande parte dos relatos cotidianos, compostos por imagens autorreferentes, numa sorte de espetáculo pessoal em diálogo com os demais membros das diversas redes.
Por isso, os canais de comunicação das mídias sociais da internet são também ferramentas para a criação de si. Esses instrumentos de autoestilização agora se encontram à disposição de qualquer um. Isso significa um setor crescente da população mundial, mas também, ao mesmo tempo, remete a outro sentido dessa expressão. "Qualquer um" significa ninguém extraordinário, em princípio, por ter produzido alguma coisa excepcional, e que tampouco se vê impelido a fazê-lo para virar um personagem público. A insistência nessa ideia de que "agora qualquer um pode" encontra-se no cerne das louvações democratizantes plasmadas em conceitos como os de "inclusão digital", recorrentes nas análises mais entusiastas destes fenômenos, tanto no âmbito acadêmico como no jornalístico.
Em que pese a suposta liberdade de escolha de cada usuário, há códigos implícitos e fórmulas bastante explícitas para o sucesso dessa autocriação.
As diversas versões dessas personalidades que performam em múltiplas telas admitem certa variabilidade individual, mas costumam partir de uma base comum. Essa modalidade subjetiva que hoje triunfa está impregnada com alguns vestígios do estilo do artista romântico, mas não se trata de alguém que procura produzir uma obra independente do seu criador. Ao invés disso, toda a energia e os recursos estilísticos estão dirigidos a que esse autor de si mesmo seja capaz de criar um personagem dotado de uma personalidade atraente. Trata-se de uma obra para ser vista e, nessa exposição, a obra precisa conquistar os aplausos do público. É uma subjetividade que se autocria em contato permanente com o olhar alheio, algo que se cinzela a todo momento para ser compartilhado, curtido, comentado e admirado. Por isso, trata-se de um tipo de construção de si alterdirigida, recorrendo aos conceitos propostos pelo sociólogo David Riesman, no livro A multidão solitária.
(Adaptado de: Paula Sibilia. O show do eu: a intimidade como espetáculo. Contraponto, edição digital)
No texto, a autora
Este texto de apoio vale também pra questão nº 1, questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6.
- Aenaltece o conceito de inclusão digital na seara do jornalismo.
- Bmostra-se avessa à ideia de usar recursos estilísticos para construir uma personalidade digital.
- Cmostra-se indiferente à criação das "vitrines interativas" da contemporaneidade.
- Dopõe-se à noção de autoconstrução de si como um personagem visível nas redes sociais.
- Eassinala que qualquer um pode se transformar num personagem público mesmo sem produzir algo notável. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
A autora, neste texto, assume uma postura analítica e descritiva sobre o fenômeno da construção da identidade nas redes sociais, observando suas características e implicações, sem necessariamente endossar ou condenar.
- (A) Incorreta: A autora menciona que o conceito de inclusão digital é "recorrente nas análises mais entusiastas" (parágrafo 3), mas ela mesma não o enaltece; ela descreve como outros o fazem. Esta é a armadilha da banca: confundir a descrição de uma ideia com a adesão a ela por parte do autor.
- (B) Incorreta: A autora descreve o uso de "recursos estilísticos" e "instrumentos de autoestilização" como parte integrante da criação da personalidade digital (parágrafos 3 e 5), não expressando aversão a essa ideia, mas sim analisando-a.
- (C) Incorreta: O texto inteiro é uma análise detalhada e engajada sobre as "vitrines interativas" e a "criação de si" na contemporaneidade, demonstrando grande interesse e não indiferença.
- (D) Incorreta: A autora descreve a "autoconstrução de si como um personagem visível" como uma meta prioritária (parágrafo 2). Embora sua análise possa ter um tom crítico sobre as implicações (como a busca por aplausos e a natureza "alterdirigida"), ela não se opõe diretamente à noção, mas a investiga.
- (E) Correta: No parágrafo 3, a autora afirma explicitamente: "'Qualquer um' significa ninguém extraordinário, em princípio, por ter produzido alguma coisa excepcional, e que tampouco se vê impelido a fazê-lo para virar um personagem público." Isso corrobora diretamente a alternativa.
Fonte: FCC TJ-CE 2022 Analista Judiciário - Especialidade Ciência da Computação - Área Sistemas da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.