Questão nº 8
Questão de Língua Portuguesa · FCC TJ-CE 2022 (nº 8)
Atenção: Para responder às questões de números 7 a 10, baseie-se no texto abaixo.
Por que não aprendi a tocar violão? Sempre me constituiu motivo de tristeza e humilhação esta precária musicalidade. Uns tocam piano, existe até quem toque harpa. Eu, nem ao violão me afiz. E não se diga que era pouco o esforço de D. Chiquinha, minha mestra. Afinava, afinava, apertava as cravelhas, dava um dó agudíssimo na prima, depois outro dó grave no bordão...
Eu pegava no violão de luxo que minha madrinha de crisma mandara do Pará, ajeitava-o mal e mal no colo, começava de boa vontade: dum, dum, dum...
— Não! Valha-me Santa Cecília! Segunda! Mude!
E eu: dum, dum, dum...
Ai, música, divina música. D. Chiquinha carpia-se. Tanto sentimento de que ela dava exemplo, tanta devoção empregada à toa. Eu recomeçava, dócil: primeira, segunda...
— D. Chiquinha, fiquei com uma bolha no dedo.
Já não sei como a descobrimos: decerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno. Cobrava dez mil-réis por mês e mais o dinheiro do bonde. Duas aulas por semana.
Professora de violão, o seu sonho secreto fora sempre o violino, entretanto. Nas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário — uma rabeca de cego, fanhosa, inválida, metida numa remendada mortalha de veludo azul. Em certos dias de bom humor e segredo, ela pegava comovida o arco e executava ao violino a valsa dos Sinos de Corneville.
Fora desfeita da sorte aquele meu fracasso, porque eu me supunha dotada e alimentava ambições. Chegara até a pensar, não digo em concertos, mas num brilhante recital de caridade em que aparecesse de vestido comprido (teria então uns doze anos) e, num belo contralto, cantasse ao violão certo tango argentino da minha preferência. Mas tudo neste mundo são vaidades: jamais atingi o tango argentino.
Voltando a D. Chiquinha: o instrumento plebeu que ensinava constituía para minha mestra uma fonte de dissabores. A começar pelo apelido que lhe davam: D. Chiquinha do Violão. Quando alguém o repetia em sua frente, ela corrigia logo, irritada: — Chiquinha do Violão, não senhor. Francisca dos Santos. Violão não é meu dono.
Por música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava. Para D. Chiquinha, a mais requintada manifestação de arte era a serenata. E dentro desse critério me ensinava visando talvez fazer de mim o que ela já fora em moça — a musa de todos os seresteiros da cidade. Sim, não só objeto passivo de canções e arpejos noturnos mas musa ativa e colaborante. O seresteiro dizia da calçada a sua trova, e lá da penumbra da alcova a donzela tomava do violão e na mesma toada respondia. Eram essas as suas lembranças mais queridas, aqueles duelos musicais, canta tu de lá, canto eu de cá — e entre os dois o grupo desvanecido dos comparsas que ajudavam no acompanhamento.
Nos acompanhamentos, a nossa favorita era a modinha "A mais gentil das praieiras". Dessa eu gostava muito. Porém a mão rebelde não me acompanhava o entusiasmo.
(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel. "A mais gentil das praieiras". Melhores crônicas. São Paulo: Global Editora, 2012, 1ª edição digital)
A narradora recorre à ironia na seguinte passagem:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 7, questão nº 9, questão nº 10.
- AEu, nem ao violão me afiz.
- BNas prateleiras da sua sala, guardava ela o seu estradivário. (alternativa correta)
- Cdecerto andava nas suas idas e vindas de casa em casa de aluno.
- DMas tudo neste mundo são vaidades.
- EPor música clássica não tinha interesse, ou antes, a ignorava.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A ironia é uma figura de linguagem que consiste em expressar o oposto do que se quer dizer, ou em apresentar uma situação em que o resultado é o contrário do esperado, geralmente com um tom de humor, crítica ou sarcasmo.
- (A) Incorreta: Esta é uma afirmação direta e sincera da narradora sobre sua dificuldade com o violão, sem duplo sentido ou contraste irônico.
- (B) Correta: A narradora usa a palavra "estradivário" (que se refere a um violino de altíssima qualidade e valor) para descrever a "rabeca de cego, fanhosa, inválida" de D. Chiquinha. O contraste entre o nome grandioso e a descrição humilde do instrumento é a essência da ironia, destacando o sonho não realizado da professora e a precariedade de seu instrumento real.
- (C) Incorreta: Esta é uma dedução ou observação direta sobre a rotina de D. Chiquinha, sem qualquer intenção de dizer o oposto do que se afirma.
- (D) Incorreta: Esta é uma reflexão filosófica da narradora sobre a natureza efêmera das ambições humanas, expressa de forma literal e sem ironia.
- (E) Incorreta: Esta é uma descrição direta e factual do desinteresse ou desconhecimento de D. Chiquinha pela música clássica, sem uso de ironia.
Fonte: FCC TJ-CE 2022 Analista Judiciário - Especialidade Ciência da Computação - Área Sistemas da Informação (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.