Questão nº 3
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 3)
Vem uma pessoa de Cachoeiro de Itapemirim e me dá notícias melancólicas. Numa viagem pelo interior, em estradas antigamente belas, achou tudo feio e triste. A estupidez e a cobiça dos homens continua a devastar e exaurir a terra.
Mas não são apenas notícias tristes que me chegam da terra. Ouço nomes de velhos amigos e fico sabendo de histórias novas. E a pessoa me fala da praia – de Marataíses – e diz que ainda continua reservado para mim aquele pedaço de terra, em cima das pedras, entre duas prainhas...
Ali, um dia, o velho Braga, juntando os tostões que puder ganhar batendo em sua máquina, levantará a sua casa perante o mar da infância. Ali plantará árvores e armará sua rede e meditará talvez com tédio e melancolia na vida que passou. Esse dia talvez ainda esteja muito longe, e talvez não exista. Mas é doce pensar que o nordeste está lá, jogando as ondas bravas e fiéis contra as pedras de antigamente; que milhões de vezes a espumarada recua e ferve, escachoando, e outra onda se ergue para arremeter contra o pequeno território em que o velho Braga construiu sua casa de sonho e de paz. Como será a casa? Ah, amigos arquitetos, vocês me façam uma coisa tão simples e tão natural que, entrando na casa, morando na casa, a gente nunca tenha a impressão de que antes de fazê-la foi preciso traçar um plano; e que a ninguém sequer ocorra que ela foi construída, mas existe naturalmente, desde sempre e para sempre, tranquila, boa e simples.
Que árvores plantarei? A terra certamente é ruim, além de pequena, e eu talvez não possa ter uma fruta-pão nem um jenipapeiro; talvez mangueiras e coqueiros para dar sombra e música; talvez... Mas nem sequer o pedaço de terra ainda é meu; meus títulos de propriedade são apenas esses devaneios que oscilam entre a infância e a velhice, que me levam para longe das inquietações de hoje.
Que rei sou eu, Braga Sem Terra, Rubem Coração de Leão de Circo, triste circo desorganizado e pobre em que o palhaço cuida do elefante e o trapezista vai pescar nas noites sem lua com a rede de proteção, e a luz das estrelas e a água da chuva atravessam o pano encardido e roto...
Mas me sinto subitamente sólido; há alguns metros, nestes 8 mil quilômetros de costa, onde posso plantar minha casa nos dias de aflição e de cansaço, com pedras de ar e telhas de brisa; e os coqueiros farfalham, um sabiá canta meio longe, e me afundo na rede, e posso dormir para sempre ao embalo do mar...
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. Vem uma pessoa. 1949)
Considerando-se o contexto, o segmento Que rei sou eu, Braga Sem Terra, Rubem Coração de Leão de Circo (5º parágrafo) estabelece um contraponto, em termos de sentido, ao que se encontra em:
- AMas me sinto subitamente sólido (6º parágrafo). (alternativa correta)
- Btriste circo desorganizado e pobre (5º parágrafo).
- Ca luz das estrelas e a água da chuva atravessam o pano encardido e roto... (5º parágrafo).
- DOuço nomes de velhos amigos e fico sabendo de histórias novas (1º parágrafo).
- Ee que a ninguém sequer ocorra que ela foi construída (3º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Um contraponto é uma ideia, frase ou elemento que se opõe, contrasta ou serve de contraste a outro, criando uma oposição de sentido. A frase "Que rei sou eu, Braga Sem Terra, Rubem Coração de Leão de Circo" expressa um sentimento de insignificância, falta de poder, despossuimento e fragilidade.
- (A) Correta: A expressão "Mas me sinto subitamente sólido" (6º parágrafo) estabelece um contraponto direto, pois "sólido" significa firme, seguro e estável, o que se opõe à fragilidade, à falta de posses ("Sem Terra") e à condição de "circo desorganizado e pobre" implícitas na frase do 5º parágrafo.
- (B) Incorreta: A expressão "triste circo desorganizado e pobre" (5º parágrafo) não é um contraponto, mas sim um complemento que reforça o sentido de precariedade e desorganização já presente na frase analisada ("Rubem Coração de Leão de Circo").
- (C) Incorreta: A expressão "a luz das estrelas e a água da chuva atravessam o pano encardido e roto..." (5º parágrafo) descreve a fragilidade e a precariedade do "circo", reforçando a ideia de desamparo, e não se opõe ao sentido da frase analisada.
- (D) Incorreta: A expressão "Ouço nomes de velhos amigos e fico sabendo de histórias novas" (1º parágrafo) é uma informação narrativa sobre o que o narrador ouve, sem relação direta de oposição com a autodepreciação ou a condição de "sem terra".
- (E) Incorreta: A expressão "e que a ninguém sequer ocorra que ela foi construída" (3º parágrafo) refere-se à idealização de uma casa que pareça natural e eterna, não estabelecendo um contraponto com a condição de despossuimento ou fragilidade do eu lírico.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Professor P - Pedagogo (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.