Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC SEDU-ES 2022 (nº 2)
Vem uma pessoa de Cachoeiro de Itapemirim e me dá notícias melancólicas. Numa viagem pelo interior, em estradas antigamente belas, achou tudo feio e triste. A estupidez e a cobiça dos homens continua a devastar e exaurir a terra.
Mas não são apenas notícias tristes que me chegam da terra. Ouço nomes de velhos amigos e fico sabendo de histórias novas. E a pessoa me fala da praia – de Marataíses – e diz que ainda continua reservado para mim aquele pedaço de terra, em cima das pedras, entre duas prainhas...
Ali, um dia, o velho Braga, juntando os tostões que puder ganhar batendo em sua máquina, levantará a sua casa perante o mar da infância. Ali plantará árvores e armará sua rede e meditará talvez com tédio e melancolia na vida que passou. Esse dia talvez ainda esteja muito longe, e talvez não exista. Mas é doce pensar que o nordeste está lá, jogando as ondas bravas e fiéis contra as pedras de antigamente; que milhões de vezes a espumarada recua e ferve, escachoando, e outra onda se ergue para arremeter contra o pequeno território em que o velho Braga construiu sua casa de sonho e de paz. Como será a casa? Ah, amigos arquitetos, vocês me façam uma coisa tão simples e tão natural que, entrando na casa, morando na casa, a gente nunca tenha a impressão de que antes de fazê-la foi preciso traçar um plano; e que a ninguém sequer ocorra que ela foi construída, mas existe naturalmente, desde sempre e para sempre, tranquila, boa e simples.
Que árvores plantarei? A terra certamente é ruim, além de pequena, e eu talvez não possa ter uma fruta-pão nem um jenipapeiro; talvez mangueiras e coqueiros para dar sombra e música; talvez... Mas nem sequer o pedaço de terra ainda é meu; meus títulos de propriedade são apenas esses devaneios que oscilam entre a infância e a velhice, que me levam para longe das inquietações de hoje.
Que rei sou eu, Braga Sem Terra, Rubem Coração de Leão de Circo, triste circo desorganizado e pobre em que o palhaço cuida do elefante e o trapezista vai pescar nas noites sem lua com a rede de proteção, e a luz das estrelas e a água da chuva atravessam o pano encardido e roto...
Mas me sinto subitamente sólido; há alguns metros, nestes 8 mil quilômetros de costa, onde posso plantar minha casa nos dias de aflição e de cansaço, com pedras de ar e telhas de brisa; e os coqueiros farfalham, um sabiá canta meio longe, e me afundo na rede, e posso dormir para sempre ao embalo do mar...
(Adaptado de: BRAGA, Rubem. Vem uma pessoa. 1949)
No segmento
- AMas nem sequer o pedaço de terra ainda é meu (4º parágrafo), o autor confessa sua desilusão em meio à expectativa de que o ofício de escritor lhe proporcione melhores condições financeiras.
- BA terra certamente é ruim, além de pequena, e eu talvez não possa ter uma fruta-pão nem um jenipapeiro (4º parágrafo), o pessimismo do autor supera a capacidade que adquirira de devanear.
- Cmeus títulos de propriedade são apenas esses devaneios que oscilam entre a infância e a velhice (4º parágrafo), aponta-se para a tentativa de escapar das questões cotidianas, voltando-se a atenção tanto para o passado quanto para o futuro. (alternativa correta)
- Dhá alguns metros, nestes 8 mil quilômetros de costa, onde posso plantar minha casa (6º parágrafo), percebe-se a concretude do imóvel a que se refere o escritor.
- EAli plantará árvores e armará sua rede e meditará talvez com tédio e melancolia (3º parágrafo), o tempo verbal empregado indica uma hipótese.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O conceito-chave aqui é a interpretação textual, que exige a compreensão do sentido das palavras e frases no contexto da crônica, identificando as emoções, intenções e reflexões do autor. É preciso ir além do sentido literal e captar as nuances e metáforas.
(A) Incorreta: O texto não estabelece uma relação direta entre a falta de propriedade da terra e uma desilusão com as condições financeiras proporcionadas pelo ofício de escritor. O autor menciona "juntando os tostões" como um meio para um fim (construir a casa), não como uma lamentação sobre a remuneração da escrita. A desilusão, se presente, é mais sobre a realidade do sonho, não sobre o trabalho em si.
(B) Incorreta: Embora o autor reconheça as limitações da terra ("ruim, além de pequena"), ele imediatamente continua a devanear sobre o que poderia plantar ("talvez mangueiras e coqueiros"). Isso mostra que o pessimismo não supera sua capacidade de sonhar; ele persiste em suas imaginações.
(C) Correta: A frase "meus títulos de propriedade são apenas esses devaneios" indica que suas verdadeiras posses são seus sonhos e fantasias. "Que oscilam entre a infância e a velhice" aponta para uma reflexão que abrange tanto o passado (infância) quanto o futuro (a velhice em que ele construiria a casa). A continuação da frase no texto ("que me levam para longe das inquietações de hoje") confirma que esses devaneios servem como uma fuga das preocupações do presente, ou seja, das questões cotidianas.
(D) Incorreta: A expressão "plantar minha casa" e a descrição posterior de uma casa com "pedras de ar e telhas de brisa" indicam claramente uma construção metafórica, uma casa idealizada e sonhada, não um imóvel concreto e real. O escritor está se referindo a um refúgio mental e espiritual.
(E) Incorreta: Embora o advérbio "talvez" indique uma hipótese, a afirmação de que "o tempo verbal empregado indica uma hipótese" é imprecisa. O tempo verbal (futuro do presente, "plantará") indica uma ação futura. A hipótese é introduzida pelo advérbio "talvez", que modifica o sentido da ação futura, tornando-a incerta, mas o tempo verbal por si só não expressa exclusivamente hipótese.
Fonte: FCC SEDU-ES 2022 Professor P - Pedagogo (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.