Questão nº 14
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-AM 2022 (nº 14)
Atenção: Leia o trecho do romance Quincas Borba, de Machado de Assis, para responder às questões de números 9 a 16.
Este Quincas Borba, se acaso me fizeste o favor de ler as Memórias Póstumas de Brás Cubas*, é aquele mesmo náufrago da existência, que ali aparece, mendigo, herdeiro inopinado, e inventor de uma filosofia. Aqui o tens agora em Barbacena. Logo que chegou, enamorou-se de uma viúva, senhora de condição mediana e parcos meios de vida; mas, tão acanhada, que os suspiros do namorado ficavam sem eco. Chamava-se Maria da Piedade. Um irmão dela, que é o presente Rubião, fez todo o possível para casá-los. Piedade resistiu, um pleuris a levou.*
Foi esse trechozinho de romance que ligou os dois homens. Saberia Rubião que o nosso Quincas Borba trazia aquele grãozinho de sandice, que um médico supôs achar-lhe? Seguramente, não; tinha-o por homem esquisito. É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba, − nem antes, nem depois da moléstia que lentamente o comeu. Quincas Borba tivera ali alguns parentes, mortos já agora em 1867; o último foi o tio que o deixou por herdeiro de seus bens. Rubião ficou sendo o único amigo do filósofo. Regia então uma escola de meninos, que fechou para tratar do enfermo. Antes de professor, metera ombros a algumas empresas, que foram a pique.
Durou o cargo de enfermeiro mais de cinco meses, perto de seis. Era real o desvelo de Rubião, paciente, risonho, múltiplo, ouvindo as ordens do médico, dando os remédios às horas marcadas, saindo a passeio com o doente, sem esquecer nada, nem o serviço da casa, nem a leitura dos jornais, logo que chegava a mala da Corte ou a de Ouro Preto.
− Tu és bom, Rubião, suspirava Quincas Borba.
− Grande façanha! Como se você fosse mau!
A opinião ostensiva do médico era que a doença do Quincas Borba iria saindo devagar. Um dia, o nosso Rubião, acompanhando o médico até à porta da rua, perguntou-lhe qual era o verdadeiro estado do amigo. Ouviu que estava perdido, completamente perdido; mas, que o fosse animando. Para que tornar-lhe a morte mais aflitiva pela certeza...?
− Lá isso, não, atalhou Rubião; para ele, morrer é negócio fácil. Nunca leu um livro que ele escreveu, há anos, não sei que negócio de filosofia...
− Não; mas filosofia é uma coisa, e morrer de verdade é outra; adeus.
(Adaptado de: ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
É, todavia, certo que o grãozinho não se despegou do cérebro de Quincas Borba (2º parágrafo).
O termo sublinhado pode ser substituído, sem prejuízo para o sentido original, por:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 9, questão nº 10, questão nº 11, questão nº 12, questão nº 13, questão nº 15, questão nº 16.
- Anesse caso
- Bcontudo (alternativa correta)
- Cpor isso
- Dalém disso
- Eportanto
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: O termo "todavia" é uma conjunção adversativa, que serve para conectar duas ideias, expressando uma oposição, contraste ou ressalva em relação à ideia anterior. Ela indica que, apesar do que foi dito antes, algo diferente ou contrário acontece.
- A) Incorreta: "Nesse caso" indica uma condição ou uma situação específica, não um contraste.
- B) Correta: "Contudo" é uma conjunção adversativa e sinônimo direto de "todavia", mantendo o sentido de oposição ou ressalva na frase.
- C) Incorreta: "Por isso" é uma conjunção conclusiva ou explicativa, indicando consequência ou causa, não contraste. A armadilha aqui é confundir a relação de oposição com uma relação de causa e efeito ou conclusão.
- D) Incorreta: "Além disso" é uma conjunção aditiva, que adiciona uma nova informação, não estabelece um contraste.
- E) Incorreta: "Portanto" é uma conjunção conclusiva, indicando uma conclusão ou um resultado, não uma oposição.
Fonte: FCC PGE-AM 2022 Assistente Procuratorial (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.