Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-AM 2022 (nº 7)
Atenção: Leia a crônica "Cobrança", de Moacyr Scliar, para responder às questões de números 3 a 8.
"Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a dívida." (Cotidiano, 10.09.2001)
Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente."
− Você não pode fazer isso comigo − protestou ela.
− Claro que posso − replicou ele. − Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.
− Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...
− Já sei − ironizou ele. − Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.
− Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...
− Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.
Neste momento começou a chuviscar.
− Você vai se molhar − advertiu ela. − Vai acabar ficando doente.
Ele riu, amargo:
− E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.
− Posso lhe dar um guarda-chuva...
− Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.
Ela agora estava irritada:
− Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.
− Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.
Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.
(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002)
Verifica-se o emprego de vírgula para assinalar a elipse (ou seja, a omissão) de um verbo em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 3, questão nº 4, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 8.
- A− Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. (17º parágrafo). (alternativa correta)
- BA ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz. (18º parágrafo).
- C− E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve. (12º parágrafo).
- D− Você comprou, não pagou. (4º parágrafo).
- E− Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui. (16º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
A elipse do verbo acontece quando um verbo é omitido de uma frase porque ele já foi mencionado antes ou pode ser facilmente entendido pelo contexto. A vírgula é frequentemente usada para indicar essa omissão, evitando a repetição.
(A) Correta: Na frase "e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora", a vírgula antes de "devedora" marca a elipse do verbo "é" (você é devedora), que já apareceu na oração anterior ("eu sou cobrador profissional").
(B) Incorreta: A vírgula em "A ele, isso pouco importava" serve para destacar um termo deslocado (adjunto adverbial ou objeto indireto), não para indicar a omissão de um verbo. Os verbos "importava", "continuava" e "carregando" estão presentes.
(C) Incorreta: A vírgula em "Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve" separa uma oração subordinada adverbial condicional da oração principal. Não há elipse de verbo marcada por essa vírgula.
(D) Incorreta: (Distrator Tentador) Em "Você comprou, não pagou", a vírgula separa duas orações coordenadas assindéticas. Embora seja uma separação de orações, ambos os verbos ("comprou" e "pagou") estão explicitamente presentes, não havendo omissão de verbo. A armadilha é que a vírgula separa as ações, mas não indica que uma palavra foi "pulada".
(E) Incorreta: A vírgula em "Acabe com isso, Aristides" isola um vocativo (o nome de quem se fala). Em "você é meu marido, você mora aqui", a vírgula separa orações coordenadas assindéticas, mas os verbos "é" e "mora" estão presentes.
Fonte: FCC PGE-AM 2022 Assistente Procuratorial (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.