Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC PGE-AM 2022 (nº 4)
Atenção: Leia a crônica "Cobrança", de Moacyr Scliar, para responder às questões de números 3 a 8.
"Cobrador usa intimidação como estratégia. Empresas de cobrança usam técnicas abusivas, como tornar pública a dívida." (Cotidiano, 10.09.2001)
Ela abriu a janela e ali estava ele, diante da casa, caminhando de um lado para outro. Carregava um cartaz, cujos dizeres atraíam a atenção dos passantes: "Aqui mora uma devedora inadimplente."
− Você não pode fazer isso comigo − protestou ela.
− Claro que posso − replicou ele. − Você comprou, não pagou. Você é uma devedora inadimplente. E eu sou cobrador. Por diversas vezes tentei lhe cobrar, você não pagou.
− Não paguei porque não tenho dinheiro. Esta crise...
− Já sei − ironizou ele. − Você vai me dizer que por causa daquele ataque lá em Nova York seus negócios ficaram prejudicados. Problema seu, ouviu? Problema seu. Meu problema é lhe cobrar. E é o que estou fazendo.
− Mas você podia fazer isso de uma forma mais discreta...
− Negativo. Já usei todas as formas discretas que podia. Falei com você, expliquei, avisei. Nada. Você fazia de conta que nada tinha a ver com o assunto. Minha paciência foi se esgotando, até que não me restou outro recurso: vou ficar aqui, carregando este cartaz, até você saldar sua dívida.
Neste momento começou a chuviscar.
− Você vai se molhar − advertiu ela. − Vai acabar ficando doente.
Ele riu, amargo:
− E daí? Se você está preocupada com minha saúde, pague o que deve.
− Posso lhe dar um guarda-chuva...
− Não quero. Tenho de carregar o cartaz, não um guarda-chuva.
Ela agora estava irritada:
− Acabe com isso, Aristides, e venha para dentro. Afinal, você é meu marido, você mora aqui.
− Sou seu marido − retrucou ele − e você é minha mulher, mas eu sou cobrador profissional e você, devedora. Eu a avisei: não compre essa geladeira, eu não ganho o suficiente para pagar as prestações. Mas não, você não me ouviu. E agora o pessoal lá da empresa de cobrança quer o dinheiro. O que quer você que eu faça? Que perca meu emprego? De jeito nenhum. Vou ficar aqui até você cumprir sua obrigação.
Chovia mais forte, agora. Borrada, a inscrição tornara-se ilegível. A ele, isso pouco importava: continuava andando de um lado para outro, diante da casa, carregando o seu cartaz.
(Adaptado de: SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002)
Em Aqui mora uma devedora inadimplente. (2º parágrafo), o termo sublinhado exerce a mesma função sintática do termo sublinhado em:
Este texto de apoio vale também pra questão nº 3, questão nº 5, questão nº 6, questão nº 7, questão nº 8.
- AEla agora estava irritada: (15º parágrafo).
- BChovia mais forte, agora. (18º parágrafo).
- CVocê é uma devedora inadimplente. (4º parágrafo). (alternativa correta)
- DNeste momento começou a chuviscar. (9º parágrafo).
- E− Posso lhe dar um guarda-chuva... (13º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O sujeito é o termo da oração que indica quem pratica ou sofre a ação expressa pelo verbo, ou sobre quem se declara algo. Para identificá-lo, perguntamos "Quem?" ou "O quê?" antes do verbo. Na frase "Aqui mora uma devedora inadimplente", perguntamos "Quem mora?", e a resposta é "uma devedora inadimplente", que, portanto, é o sujeito.
- (A) Incorreta: "irritada" é um predicativo do sujeito, pois atribui uma característica ao sujeito "Ela", ligado por um verbo de ligação ("estava").
- (B) Incorreta: "agora" é um adjunto adverbial de tempo, indicando o momento em que a ação ocorre.
- (C) Correta: "Você" é o sujeito da oração, pois indica quem "é uma devedora inadimplente". Assim como no trecho original, exerce a função de sujeito.
- (D) Incorreta: "Neste momento" é um adjunto adverbial de tempo, indicando o período em que a ação de chuviscar começou.
- (E) Incorreta: "um guarda-chuva" é o objeto direto do verbo "dar", ou seja, é o complemento que recebe a ação do verbo diretamente.
Fonte: FCC PGE-AM 2022 Assistente Procuratorial (Caderno Tipo 003). Reproduzida para fins de estudo.