Questão nº 16
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPE-AM 2024 (nº 16)
O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras. (1º parágrafo)
Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais — no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne. (2º parágrafo)
A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro — que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas. (3º parágrafo)
(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
Introduz uma oração subordinada a palavra sublinhada no seguinte trecho:
- ANão sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. (2º parágrafo) (alternativa correta)
- BO fato é que um coração se apiedou da tragédia. (3º parágrafo)
- CE sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. (3º parágrafo)
- DPrimeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. (2º parágrafo)
- EO caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. (1º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Orações subordinadas substantivas são frases que funcionam como um substantivo (sujeito, objeto, etc.) dentro de outra frase (a principal) e podem ser introduzidas por conjunções como 'que' ou 'se'. O desafio é diferenciar o 'se' que é uma conjunção integrante (e introduz uma oração) do 'se' que é um pronome (reflexivo, parte de um verbo pronominal, partícula apassivadora, etc.).
(A) Correta: O 'se' atua como conjunção integrante, introduzindo uma oração subordinada substantiva objetiva direta ("se os presentes compreenderam..."), que pode ser substituída por "isso" ("Não sei isso").
(B) Incorreta: O 'se' é parte integrante do verbo "apiedar-se" (verbo pronominal), funcionando como um pronome reflexivo ou parte da estrutura do verbo, e não introduz uma oração. A armadilha da banca aqui é confundir o 'se' que faz parte do verbo com o 'se' que liga orações.
(C) Incorreta: O 'se' é parte integrante do verbo "responsabilizar-se" (verbo pronominal), funcionando como um pronome reflexivo ou parte da estrutura do verbo, e não introduz uma oração.
(D) Incorreta: O 'se' é parte integrante do verbo "debater-se" (verbo pronominal), funcionando como um pronome reflexivo ou parte da estrutura do verbo, e não introduz uma oração.
(E) Incorreta: O 'se' é uma partícula apassivadora ("O caso foi dado aqui") ou parte de uma construção verbal, e não uma conjunção que introduz uma oração subordinada.
Fonte: FCC MPE-AM 2024 Agente de Apoio - Especialidade Administrativo (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.