Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC MPE-AM 2024 (nº 12)
O caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão. Da primeira redada veio um tal peixe que causou espanto: ninguém podia crer que naquele côncavo de mar morasse tanto peixe assim. Havia de ser alguma piracema que ia passando; para lá de três toneladas de pescado foram apanhadas de uma só vez. Na segunda redada nada veio, ou quase nada — fugira a piracema ou fora toda colhida pela rede. Entretanto, no meio daquele quase nada apareceu um bicho estranho: uma tartaruga do mar. Tartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece, tartaruga das profundezas salinas, meio peixe, porque em vez de pernas tem nadadeiras. (1º parágrafo)
Primeiro ela se debateu e tentou de todas as maneiras furar a malha. Depois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia, de barriga para cima. Por fim puseram-na em posição normal; e ela, recuperando imediatamente a compostura, estirou o pescoço enrugado e correu em torno de si um olho temeroso. Não sei se os presentes compreenderam quanto havia de surpresa, terror e pasmo nos olhos da tartaruga. Muito pior que um bicho da terra pego numa rede: este pode estranhar a prisão, mas afinal continua dentro de um elemento conhecido, pisando chão, vendo árvores familiares, sentindo o cheiro da terra. A tartaruga não: para ela, nascida e vivida no mar, aquela era a mais estranha, a mais inacreditável e terrível das aventuras. Para aquela tartaruga era o mesmo que seria para um de nós vermo-nos transportados subitamente, sem dano físico, até o fundo do mar. Imagine que estranho, que portentoso e medonho não parece. As caras desconhecidas de ignorados animais — no caso, homens. E todos, todos, canibais ou pior que isso — pois bem sentia ela sobre o seu casco grosso, sobre a carapaça encaracada, o olhar doce e atento e cobiçoso dos comedores de carne. (2º parágrafo)
A sorte da coitada foi ninguém chegar a um acordo sobre a forma de abatê-la. E sorte maior o fato de ninguém, pessoalmente, querer se responsabilizar pela carnificina naquela quinta-feira santa. Mas levaram-na para o galinheiro — que ignomínia, uma veterana dos sete mares a ser atirada entre as galinhas, na noite que deveria ser a última da sua vida; ela que decerto esperava sepultar-se entre areias claras, nalgum maciço colorido de anêmonas do mar. Mas felizmente para a tartaruga, incerto é o coração do homem, incertos, os seus impulsos. Tanto vai para um lado como para o outro, tanto procura devorar hoje o seu irmão bicho, como amanhã o festeja e liberta. O fato é que um coração se apiedou da tragédia e houve mão que abriu a porta da capoeira e encaminhou a marcha rampante do bicho marinho em direção da praia, em direção do mar, sua pátria. Ela também não esperou arrependimento, não hesitou, não agradeceu. Cortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água como um barco a deslizar do estaleiro, mergulhou, emergiu, voltou a cabeça ainda assustada para aquele mundo sujo, escuro, inimigo, onde viviam os homens, onde esperava nunca mais voltar; e mergulhou de novo, abraçando toda a água que podia entre as nadadeiras abertas. (3º parágrafo)
(Adaptado de: QUEIROZ, Rachel de. 100 crônicas escolhidas: um alpendre, uma rede, um açude. Rio de Janeiro: José Olympio, 2021)
De acordo com o Dicionário Houaiss da língua portuguesa, os dêiticos são elementos indiciais da linguagem que se referem à situação em que o enunciado é produzido, ao momento da enunciação e aos atores do discurso. Expressões como "ali", "lá", "hoje" ou "ontem" devem ser interpretadas em função de onde e em que momento se encontram os atores do discurso quando dizem "ali", "lá", "hoje" ou "ontem". Ocorre um dêitico que se refere ao lugar em que o enunciado é produzido (ao lugar onde se encontra a cronista) no seguinte trecho:
- AO fato é que um coração se apiedou da tragédia (3º parágrafo).
- BCortou a areia deixando um rastro longo, penetrou na água (3º parágrafo).
- CO caso deu-se aqui na Ilha, numa pescaria de arrastão (1º parágrafo). (alternativa correta)
- DTartaruga diferente daquelas fluviais que a gente conhece (1º parágrafo).
- EDepois foi agarrada e atirada ignominiosamente na areia (2º parágrafo).
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Dêiticos são palavras que "apontam" para elementos da situação de comunicação, como quem fala, onde e quando. Um dêitico de lugar indica o espaço físico onde o falante (a cronista, neste caso) se encontra ou para o qual se refere no momento da fala.
- (A) Incorreta: "Coração" e "tragédia" são substantivos comuns, não indicam lugar nem dependem da situação de enunciação para seu sentido básico.
- (B) Incorreta: "Areia" e "água" são substantivos comuns que nomeiam elementos do cenário, mas não são dêiticos que indicam o lugar da cronista.
- (C) Correta: A palavra "aqui" é um dêitico de lugar que se refere diretamente ao local onde a cronista (o eu-lírico ou narrador) se encontra no momento da narração, ou seja, "nesta Ilha" onde o caso aconteceu.
- (D) Incorreta: "Aquelas" é um pronome demonstrativo que pode ter função deítica ao indicar distância, mas não aponta para o lugar onde a cronista está produzindo o enunciado. "Gente" é um pronome indefinido. A armadilha aqui é que pronomes demonstrativos ("aquelas") podem ser dêiticos, mas "aquelas fluviais" refere-se a um tipo de tartaruga distante ou diferente, e não ao local de enunciação da cronista.
- (E) Incorreta: "Areia" é um substantivo comum, não um dêitico de lugar.
Fonte: FCC MPE-AM 2024 Agente de Apoio - Especialidade Administrativo (Caderno Tipo 004). Reproduzida para fins de estudo.