Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 4)
De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!
– Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.
– Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...
– Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...
– Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!
(ASSIS, Machado de. O alienista. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 24-25)
Ao se transpor o trecho O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo (1º parágrafo) para o discurso direto, o verbo sublinhado assume a seguinte forma:
- Aimaginaria.
- Bimagino.
- Cimaginarei.
- Dimaginei. (alternativa correta)
- Eimaginasse.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Quando passamos uma fala de alguém (discurso direto) para contar o que foi dito (discurso indireto), ou o contrário, os tempos verbais geralmente mudam. A ideia é que, no discurso direto, usamos o tempo verbal que a pessoa usaria se estivesse falando naquele momento.
- (A) Incorreta: "Imaginaria" é o futuro do pretérito ou condicional. Não se encaixa para expressar uma ação que o padre Lopes não havia realizado no passado.
- (B) Incorreta: "Imagino" está no presente do indicativo. O padre confessou algo que não aconteceu no passado, então o presente não faz sentido.
- (C) Incorreta: "Imaginarei" está no futuro do presente. A confissão é sobre algo passado, não futuro.
- (D) Correta: O verbo "imaginara" (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) no discurso indireto indica uma ação passada que ocorreu antes de outra ação passada (a confissão). Ao transpor para o discurso direto, essa ação passada anterior é geralmente expressa pelo pretérito perfeito do indicativo, que é "imaginei". O padre Lopes diria: "Eu não imaginei a existência de tantos doidos no mundo."
- (E) Incorreta: "Imaginasse" está no pretérito imperfeito do subjuntivo, usado para hipóteses, desejos ou condições, não para uma afirmação direta de um fato passado.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Consultor Técnico Legislativo (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.