Questão nº 1

Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 1)

FCC2019Consultor Técnico LegislativoLíngua Portuguesa
Gabarito: Cver comentário ↓

De todas as vilas e arraiais vizinhos afluíam loucos à Casa Verde. Eram furiosos, eram mansos, eram monomaníacos, era toda a família dos deserdados do espírito. Ao cabo de quatro meses, a Casa Verde era uma povoação. Não bastaram os primeiros cubículos; mandou-se anexar uma galeria de mais trinta e sete. O padre Lopes confessou que não imaginara a existência de tantos doidos no mundo, e menos ainda o inexplicável de alguns casos. Um, por exemplo, um rapaz bronco e vilão, que todos os dias, depois do almoço, fazia regularmente um discurso acadêmico, ornado de tropos, de antíteses, de apóstrofes, com seus recamos de grego e latim, e suas borlas de Cícero, Apuleio e Tertuliano. O vigário não queria acabar de crer. Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!

– Não digo que não, respondia-lhe o alienista; mas a verdade é o que Vossa Reverendíssima está vendo. Isto é todos os dias.

– Quanto a mim, tornou o vigário, só se pode explicar pela confusão das línguas na torre de Babel, segundo nos conta a Escritura; provavelmente, confundidas antigamente as línguas, é fácil trocá-las agora, desde que a razão não trabalhe...

– Essa pode ser, com efeito, a explicação divina do fenômeno, concordou o alienista, depois de refletir um instante, mas não é impossível que haja também alguma razão humana, e puramente científica, e disso trato...

– Vá que seja, e fico ansioso. Realmente!

(ASSIS, Machado de. O alienista. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 24-25)


No discurso indireto livre, a voz do personagem mistura-se à voz do narrador, a exemplo do que se observa em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

O discurso indireto livre é uma técnica narrativa em que a fala ou o pensamento de um personagem é inserido na narração sem o uso de verbos de elocução (como "disse" ou "pensou") e sem aspas, misturando a voz do narrador com a do personagem.

  • (A) Incorreta: Trecho de pura narração, descrevendo fatos e eventos de forma objetiva, sem a voz de um personagem.
  • (B) Incorreta: Trecho de pura narração, descrevendo características dos personagens (os loucos) de forma objetiva, sem a voz de um personagem.
  • (C) Correta: O narrador apresenta o estado de espírito do vigário ("não queria acabar de crer") e, em seguida, insere o pensamento/exclamação do personagem ("Quê! um rapaz que ele vira, três meses antes, jogando peteca na rua!") sem um verbo de elocução ou aspas, mas com a entonação e o vocabulário próprios do vigário, caracterizando o discurso indireto livre.
  • (D) Incorreta: Este é um exemplo de discurso direto, pois a fala do vigário é introduzida por um travessão e um verbo de elocução ("tornou o vigário"), reproduzindo suas palavras exatas. A armadilha é confundir a fala de um personagem com a fusão da voz do narrador e do personagem.
  • (E) Incorreta: Este é um exemplo de discurso direto, pois a fala do alienista é introduzida por um travessão e um verbo de elocução ("concordou o alienista"), reproduzindo suas palavras exatas.

Fonte: FCC CMFOR 2019 Consultor Técnico Legislativo (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.

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