Questão nº 12
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 12)
Lembrei-me dele e senti saudades... Tanto tempo que a gente não se vê. Dei-me conta da coisa rara que é a amizade. E, no entanto, é a coisa mais alegre que a vida nos dá.
Lembrei-me de um trecho de Jean-Christophe, que li quando era jovem, e do qual nunca esqueci. Romain Rolland descreve a primeira experiência com a amizade do seu herói adolescente. Já conhecera muitas pessoas nos curtos anos de sua vida. Mas o que experimentava naquele momento era diferente de tudo o que já sentira antes.
Um amigo é alguém com quem estivemos desde sempre. Pela primeira vez, estando com alguém, não sentia necessidade de falar. Bastava a alegria de estarem juntos.
“Christophe voltou sozinho dentro da noite. Nada via. Nada ouvia. Estava morto de sono e adormeceu apenas deitou-se. Mas durante a noite foi acordado duas ou três vezes, como que por uma ideia fixa. Repetia para si mesmo: ‘Tenho um amigo’, e tornava a adormecer.”
Jean-Christophe compreendera a essência da amizade. Amiga é aquela pessoa em cuja companhia não é preciso falar. Se o silêncio entre vocês lhe causa ansiedade, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo ou comer. Quando a pessoa não é amiga, terminado o alegre e animado programa, vêm o silêncio e o vazio, que são insuportáveis.
Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. A amizade anda por caminhos que não passam por programas.
Um amigo vive de sua inutilidade. Pode até ser útil eventualmente, mas não é isso que o torna um amigo. Sua inútil e fiel presença silenciosa torna a nossa solidão uma experiência de comunhão. E alegria maior não pode existir.
(Adaptado de: ALVES, Rubem. O retorno e terno. Campinas: Papirus, 1995, p. 11-13)
Tanto tempo que a gente não se vê. (1º parágrafo)
O sentido da frase acima está mantido em discurso indireto do seguinte modo:
Ele percebeu que
- Ahá muito que já não haveremos de nos ver.
- Bfaria bastante tempo sem que nós nos víssemos.
- Chaveria muito tempo que eles não tinham se visto.
- Dhouvera bastante tempo que não se verão.
- Efazia muito tempo que eles não se viam. (alternativa correta)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa E
Quando transformamos o discurso direto (as palavras exatas de alguém) em discurso indireto (o que alguém disse, contado por outra pessoa), precisamos ajustar os pronomes, os tempos verbais e, às vezes, os advérbios. A regra geral para verbos é que o presente do indicativo no discurso direto geralmente se torna pretérito imperfeito do indicativo no discurso indireto, especialmente quando o verbo que introduz a fala (o verbo de elocução, como "percebeu") está no passado.
(A) Incorreta: O uso do futuro "haveremos de nos ver" e a inclusão do "nós" (que implicaria o narrador) não correspondem à transformação adequada da frase original, que expressa uma situação presente/passada ("não se vê") e se refere a "a gente" (eles).
(B) Incorreta: O verbo "faria" está no futuro do pretérito (condicional), o que altera completamente o sentido de constatação da frase original. Além disso, a construção "sem que nós nos víssemos" usa o subjuntivo de forma inadequada para a transformação.
(C) Incorreta: O verbo "haveria" também está no futuro do pretérito (condicional), o que é inadequado. Embora "não tinham se visto" (pretérito mais-que-perfeito composto) seja um tempo verbal de passado, a mudança mais natural do presente ("não se vê") para o discurso indireto, quando o verbo introdutório está no passado, é o pretérito imperfeito ("não se viam"). A armadilha aqui é a tentativa de usar um tempo verbal de passado, mas o condicional "haveria" é o erro principal.
(D) Incorreta: O verbo "houvera" (pretérito mais-que-perfeito simples) é um tempo verbal formal e pouco comum na fala cotidiana, mas o erro mais grave é o uso do futuro "não se verão", que não mantém o sentido da frase original.
(E) Correta: A frase "fazia muito tempo" (pretérito imperfeito do indicativo) expressa corretamente a duração no passado, correspondendo a "Tanto tempo que...". O verbo "viam" (pretérito imperfeito do indicativo) é a transformação correta do presente "vê" para o discurso indireto, quando o verbo introdutório ("percebeu") está no passado. A mudança de "a gente" para "eles" também está correta, pois o "ele" (quem percebeu) está relatando a situação de outras pessoas.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Conhecimentos Comuns (Superior Padrão) (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.