Questão nº 4
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 4)
Desde aquela história de Jó contada no Antigo Testamento, Deus e o Diabo não apostavam sobre os seres humanos, com o que a eternidade já estava ficando meio monótona. O Maligno resolveu, então, provocar o Senhor: que tal uma nova aposta? Deus, na sua infinita paciência, topou.
Dessa vez, contudo, o Diabo estava decidido a não perder. Para começar, escolheu cuidadosamente o lugar onde procuraria sua vítima: um país chamado Brasil no qual, segundo seus assessores ministeriais, a diferença entre pobres e ricos chegava ao nível da obscenidade. Os mesmos assessores tinham sugerido que se concentrasse em aposentados, pessoas que sabidamente ganham pouco.
O Diabo pôs-se em ação. Foi-lhe fácil induzir um erro no sistema de pagamento de aposentadorias, com o qual um aposentado recebeu, de uma só vez, mais de R$ 6 milhões. E aí tanto o céu como o inferno pararam: anjos, santos e demônios, todos queriam ver o que o homem faria com o dinheiro. O Diabo, naturalmente, esperava que ele se entregasse a uma vida de deboches: festas espantosas, passeios em iates luxuosos, rios de champanhe fluindo diariamente.
Não foi nada disto que aconteceu. Ao constatar a existência do depósito milionário, o aposentado simplesmente devolveu o dinheiro. Eu não conseguiria dormir, disse, à guisa de explicação.
O Diabo ficou indignado com o que lhe parecia uma extrema burrice. Mas então teve a ideia de verificar o quanto o homem recebia de aposentadoria por mês: menos de R$ 600. Deu-se conta então de seu erro: a desproporção entre a quantia e os R$ 6 milhões da tentação tinha sido grande demais.
Mas o Diabo aprendeu a lição. Pretende desafiar de novo o Senhor. Desta vez, porém, escolherá um milionário, alguém familiarizado com o excesso de grana. Ou então um pobre. Mas neste acaso fornecerá, além de muito dinheiro, um frasco de pílulas para dormir. A insônia dos justos tira o sono de qualquer diabo.
Ao ser transposto para o discurso indireto, o trecho Eu não conseguiria dormir, disse [o aposentado] (4º parágrafo) assume a seguinte redação:
- AO aposentado disse que ele não conseguiria dormir. (alternativa correta)
- BDisse o aposentado: – Eu não conseguiria dormir.
- CDisse-me o aposentado que ele não conseguia dormir.
- DO aposentado disse-me: – Eu não conseguia dormir.
- EO aposentado disse que ele não conseguira dormir.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O discurso direto reproduz a fala de um personagem exatamente como ela foi dita, usando aspas ou travessão. Já o discurso indireto é quando o narrador conta o que o personagem disse, adaptando pronomes, tempos verbais e usando conjunções como "que" ou "se".
- (A) Correta: A alternativa transforma corretamente o discurso direto em indireto. O pronome "Eu" (1ª pessoa) é alterado para "ele" (3ª pessoa), e o verbo "conseguiria" (Futuro do Pretérito) permanece no Futuro do Pretérito, pois essa é a regra para essa transformação específica.
- (B) Incorreta: Esta alternativa mantém o discurso direto, utilizando o travessão e reproduzindo a fala exata do aposentado, o que não corresponde à transposição para o discurso indireto.
- (C) Incorreta: Embora use o "que" e altere o pronome, o tempo verbal "conseguia" (Pretérito Imperfeito) está incorreto. O Futuro do Pretérito ("conseguiria") não se transforma em Pretérito Imperfeito no discurso indireto; ele se mantém. Esta é a armadilha da banca, pois muitos alunos podem confundir as regras de transformação de tempos verbais.
- (D) Incorreta: Esta alternativa também mantém o discurso direto, com o uso do travessão e a reprodução literal da fala, além de alterar o tempo verbal dentro da citação ("conseguia" em vez de "conseguiria").
- (E) Incorreta: O tempo verbal "conseguira" (Pretérito Mais-que-perfeito) está incorreto. O Futuro do Pretérito ("conseguiria") não se transforma em Pretérito Mais-que-perfeito no discurso indireto.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Agente Administrativo (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.