Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · FCC CMFOR 2019 (nº 2)
Desde aquela história de Jó contada no Antigo Testamento, Deus e o Diabo não apostavam sobre os seres humanos, com o que a eternidade já estava ficando meio monótona. O Maligno resolveu, então, provocar o Senhor: que tal uma nova aposta? Deus, na sua infinita paciência, topou.
Dessa vez, contudo, o Diabo estava decidido a não perder. Para começar, escolheu cuidadosamente o lugar onde procuraria sua vítima: um país chamado Brasil no qual, segundo seus assessores ministeriais, a diferença entre pobres e ricos chegava ao nível da obscenidade. Os mesmos assessores tinham sugerido que se concentrasse em aposentados, pessoas que sabidamente ganham pouco.
O Diabo pôs-se em ação. Foi-lhe fácil induzir um erro no sistema de pagamento de aposentadorias, com o qual um aposentado recebeu, de uma só vez, mais de R$ 6 milhões. E aí tanto o céu como o inferno pararam: anjos, santos e demônios, todos queriam ver o que o homem faria com o dinheiro. O Diabo, naturalmente, esperava que ele se entregasse a uma vida de deboches: festas espantosas, passeios em iates luxuosos, rios de champanhe fluindo diariamente.
Não foi nada disto que aconteceu. Ao constatar a existência do depósito milionário, o aposentado simplesmente devolveu o dinheiro. Eu não conseguiria dormir, disse, à guisa de explicação.
O Diabo ficou indignado com o que lhe parecia uma extrema burrice. Mas então teve a ideia de verificar o quanto o homem recebia de aposentadoria por mês: menos de R$ 600. Deu-se conta então de seu erro: a desproporção entre a quantia e os R$ 6 milhões da tentação tinha sido grande demais.
Mas o Diabo aprendeu a lição. Pretende desafiar de novo o Senhor. Desta vez, porém, escolherá um milionário, alguém familiarizado com o excesso de grana. Ou então um pobre. Mas neste acaso fornecerá, além de muito dinheiro, um frasco de pílulas para dormir. A insônia dos justos tira o sono de qualquer diabo.
A hipérbole consiste no exagero da expressão de uma ideia (por exemplo: morrer de medo, estourar de rir etc.). Ocorre hipérbole no seguinte trecho:
- AO Diabo ficou indignado com o que lhe parecia uma extrema burrice (5º parágrafo)
- BAo constatar a existência do depósito milionário (4º parágrafo)
- Cfestas espantosas, passeios em iates luxuosos, rios de champanhe fluindo diariamente (3º parágrafo) (alternativa correta)
- Da desproporção entre a quantia e os R$ 6 milhões da tentação tinha sido grande demais. (5º parágrafo)
- EDesta vez, porém, escolherá um milionário, alguém familiarizado com o excesso de grana (6º parágrafo)
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A hipérbole é uma figura de linguagem que consiste no exagero intencional de uma ideia ou situação para torná-la mais expressiva, dramática ou impactante, indo além do que é literalmente possível ou razoável.
(A) Incorreta: "extrema burrice" é uma avaliação forte, mas não necessariamente um exagero fantasioso; é uma intensidade de julgamento.
(B) Incorreta: "depósito milionário" é uma constatação factual do valor recebido (R$ 6 milhões), não um exagero.
(C) Correta: "rios de champanhe fluindo diariamente" é um exagero claro e intencional, pois champanhe não flui como um rio nem em tal quantidade diariamente, caracterizando uma vida de luxo extremo de forma hiperbólica.
(D) Incorreta: "grande demais" descreve a desproporção real e objetiva entre R$ 600 e R$ 6 milhões; a desproporção era de fato enorme, não um exagero. A armadilha da banca aqui é que "grande demais" pode soar como exagero, mas no contexto da diferença entre R$ 600 e R$ 6 milhões, é uma descrição precisa da magnitude.
(E) Incorreta: "excesso de grana" é uma caracterização da condição de um milionário, não um exagero da realidade.
Fonte: FCC CMFOR 2019 Agente Administrativo (Caderno Tipo 001). Reproduzida para fins de estudo.