Questão nº 90
Questão de Filosofia · INEP ENEM 2023 (nº 90)
Não tinha outra filosofia. Nem eu. Não digo que a Universidade me não tivesse ensinado alguma; mas eu decorei-lhe só as fórmulas, o vocabulário, o esqueleto. Tratei-a como tratei o latim; embolsei três versos de Virgílio, dois de Horácio, uma dúzia de locuções morais e políticas, para as despesas da conversação. Tratei-os como tratei a história e a jurisprudência. Colhi de todas as cousas a fraseologia, a casca, a ornamentação.
A descrição crítica do personagem de Machado de Assis assemelha-se às características dos sofistas, contestados pelos filósofos gregos da Antiguidade, porque se mostra alinhada à
- Aelaboração conceitual de entendimentos.
- Butilização persuasiva do discurso. (alternativa correta)
- Cnarração alegórica dos rapsodos.
- Dinvestigação empírica da physis.
- Eexpressão pictográfica da pólis.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
A ideia-chave é que os sofistas eram mestres da retórica (a arte de argumentar e convencer pelo discurso), e não filósofos preocupados com a verdade profunda das coisas. O personagem de Machado aprendeu só a "casca" — fórmulas, vocabulário, frases prontas — exatamente para usar na conversa, ou seja, para persuadir sem compromisso com o conteúdo real.
- (A) Incorreta: O texto critica justamente a ausência de elaboração conceitual; o personagem decorou fórmulas vazias, não construiu conceitos.
- (B) Correta: O personagem acumula frases e locuções apenas "para as despesas da conversação", isto é, para persuadir e brilhar no discurso — exatamente o que caracteriza a retórica sofística, criticada por Sócrates e Platão por priorizar o convencimento sobre a verdade.
- (C) Incorreta: Rapsodos eram recitadores de poemas épicos na Grécia antiga; nada no texto trata de recitação alegórica de epopeias.
- (D) Incorreta: A physis (natureza) e sua investigação empírica são temas dos pré-socráticos (como os milesianos), não dos sofistas nem do personagem.
- (E) Incorreta: Pictográfica remete a escrita por imagens/símbolos, algo inexistente no contexto da pólis grega clássica e ausente no texto.
Distrator mais tentador — (A): a banca atrai o aluno que pensa "filosofia = pensar conceitos", levando-o a marcar a alternativa que parece mais "nobre". Mas o texto diz o oposto: o personagem não elaborou conceitos, só decorou cascas. A armadilha é confundir o que a filosofia deveria ser com o que o personagem de fato fez — e o que ele fez (frases prontas para a conversa) é retórica, não conceito.
Fonte: INEP ENEM 2023 (Caderno Azul). Reproduzida para fins de estudo.