Questão nº 54
Questão de Filosofia · INEP ENEM 2023 (nº 54)
Eu poderia concluir que a raiva é um pensamento, que estar com raiva é pensar que alguém é detestável, e que esse pensamento, como todos os outros — assim como Descartes o mostrou —, não poderia residir em nenhum fragmento de matéria. A raiva seria, portanto, espírito. Porém, quando me volto para minha própria experiência da raiva, devo confessar que ela não estava fora do meu corpo, mas inexplicavelmente nele.
No que se refere ao problema do corpo, a filosofia cartesiana apresenta-se como contraponto ao entendimento expresso no texto por
- Aapresentar uma visão dualista. (alternativa correta)
- Bconfirmar uma tese naturalista.
- Cdemonstrar uma premissa realista.
- Dsustentar um argumento idealista.
- Edefender uma posição intencionalista.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
O dualismo cartesiano é a tese de Descartes de que existem duas substâncias realmente distintas: a res cogitans (mente/pensamento, imaterial) e a res extensa (corpo/matéria, extensa no espaço). O texto do enunciado descreve justamente alguém que tenta separar raiva (pensamento → espírito) do corpo, mas confessa que a raiva está "inexplicavelmente no corpo" — ou seja, o autor problematiza essa separação. A questão pergunta: a filosofia cartesiana é contraponto a esse entendimento. Contraponto = oposição. Logo, o gabarito é a alternativa que expressa o que Descartes defende e que se opõe à experiência relatada: a separação corpo/mente, isto é, o dualismo.
- (A) Correta: Descartes sustenta o dualismo — mente (pensamento) e corpo (matéria) são substâncias distintas; é exatamente isso que entra em choque com a experiência do texto, em que a raiva aparece "inexplicavelmente no corpo", borrando a fronteira entre as duas.
- (B) Incorreta: Naturalismo reduz tudo (inclusive a mente) à natureza/matéria; é o oposto de Descartes, que justamente recusa reduzir o pensamento a fragmentos de matéria.
- (C) Incorreta: Realismo é tese sobre a existência independente dos objetos do conhecimento — não é o eixo do problema corpo/mente discutido aqui.
- (D) Incorreta: Idealismo afirma que a realidade é fundamentalmente mental/ideias; Descartes é dualista, não idealista no sentido estrito — e o texto não gira em torno dessa disputa.
- (E) Incorreta: Intencionalismo trata da direcionalidade da consciência (todo pensamento é sobre algo); não é a tese que caracteriza a resposta cartesiana ao problema do corpo.
Distrator mais tentador — (D) Idealismo: a armadilha da banca é que o texto fala de "pensamento", "espírito", "não residir em matéria" — vocabulário que soa idealista. O aluno desatento associa "mente imaterial" a "idealismo" e marca (D). Mas Descartes não diz que só existem ideias; ele afirma que existem duas substâncias (mente E corpo), o que é dualismo, não idealismo. Fixe assim: se aparecem duas realidades separadas (pensamento + matéria), é dualismo; se aparece só mente/ideia, é idealismo.
Fonte: INEP ENEM 2023 (Caderno Azul). Reproduzida para fins de estudo.