Questão nº 43
Questão de Literatura · INEP ENEM 2023 (nº 43)
Mestre e companheiro, disse eu que nos íamos despedir. Mas disse mal. A morte não extingue: transforma; não aniquila: renova; não divorcia: aproxima. Um dia supuseste "morta e separada" a consorte dos teus sonhos e das tuas agonias, que te soubera "pôr um mundo inteiro no recanto" do teu ninho; e, todavia, nunca ela te esteve mais presente, no íntimo de ti mesmo e na expressão do teu canto, no fundo do teu ser e na face de tuas ações. Esses catorze versos inimitáveis, em que o enlevo dos teus discípulos resume o valor de toda uma literatura, eram a aliança de ouro do teu segundo noivado, um anel de outras núpcias, para a vida nova do teu renascimento e da tua glorificação, com a sócia sem nódoa dos teus anos de mocidade e madureza, da florescência e frutificação de tua alma. Para os eleitos do mundo das ideias a miséria está na decadência, e não na morte. A nobreza de uma nos preserva das ruínas da outra. Quando eles atravessavam essa passagem do invisível, que os conduz à região da verdade sem mescla, então é que entramos a sentir o começo do seu reino, o reino dos mortos sobre os vivos.
Esse é um trecho do discurso de Rui Barbosa na Academia Brasileira de Letras em homenagem a Machado de Assis por ocasião de sua morte. Uma das características desse discurso de homenagem é a presença de
- Ametáforas relacionadas à trajetória pessoal e criadora do homenageado. (alternativa correta)
- Brecursos fonológicos empregados para a valorização do ritmo do texto.
- Cfrases curtas e diretas no relato da vida e da morte do homenageado.
- Dcontraposição de ideias presentes na obra do homenageado.
- Eseleção vocabular representativa do sentimento de nostalgia.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa A
Conceito-chave: Em um discurso de homenagem (gênero laudatório), o orador costuma construir metáforas — comparações implícitas que substituem um termo por outro — para transformar a vida e a obra do homenageado em algo simbólico e grandioso. Aqui, Rui Barbosa usa imagens como "aliança de ouro", "noivado", "núpcias", "florescência e frutificação" para falar da trajetória pessoal e criadora de Machado de Assis.
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(A) Correta: O texto todo é tecido por metáforas que remetem à vida e à criação literária do homenageado: "consorte dos teus sonhos", "segundo noivado", "núpcias", "florescência e frutificação de tua alma". Essas imagens figuradas constroem a homenagem ligando amor, morte, renascimento e obra — exatamente o que o gabarito aponta.
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(B) Incorreta: O trecho tem sim ritmo marcado (paralelismos, antíteses), mas isso é efeito de sintaxe e semântica, não de recursos fonológicos (aliteração, assonância, rima) como característica central do discurso. A banca troca o eixo de análise.
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(C) Incorreta: As frases são longas, solenes e cheias de subordinação — o oposto de "curtas e diretas". Basta olhar o período "Esses catorze versos inimitáveis...". É uma armadilha para quem lê só o começo ("Mestre e companheiro, disse eu...").
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(D) Incorreta: Há contraposições no texto (morte × transformação, decadência × morte), mas elas expressam a visão do orador sobre a morte, não uma contraposição de ideias da obra de Machado. A banca desloca o foco do discurso para a literatura do homenageado.
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(E) Incorreta: O tom predominante é de exaltação e transcendência ("renascimento", "glorificação", "reino dos mortos sobre os vivos"), não de nostalgia (saudade melancólica do passado). É a pegadinha mais tentadora: como é um discurso fúnebre, o aluno associa automaticamente "morte = nostalgia" e marca E. Mas o texto insiste que a morte transforma, renova, aproxima — logo, não é lamento nostálgico, é celebração da permanência.
Fonte: INEP ENEM 2023 (Caderno Azul). Reproduzida para fins de estudo.