Questão nº 26
Questão de Literatura · INEP ENEM 2023 (nº 26)
A escravidão
Esses meninos que aí andam jogando peteca não viram nunca um escravo... Quando crescerem, saberão que já houve no Brasil uma raça triste, votada à escravidão e ao desespero; e verão nos museus a coleção hedionda dos troncos, dos vira-mundos e dos bacalhaus; e terão notícias dos trágicos horrores de uma época maldita: filhos arrancados ao seio das mães, virgens violadas em pranto, homens assados lentamente em fornos de cal, mulheres nuas recebendo na sua mísera nudez desvalida o duplo ultraje das chicotadas e dos olhares do feitor bestial. [...] Mas a sua indignação nunca poderá ser tão grande como a daqueles que nasceram e cresceram em pleno horror, no meio desse horrível drama de sangue e lodo, sentindo dentro do ouvido e da alma, numa arrastada e contínua melopeia, o longo gemer da raça mártir — orquestração satânica de todos os soluços, de todas as impressões, de todos os lamentos que a tortura e a injustiça podem arrancar a gargantas humanas.
Publicado em 1902, o texto de Olavo Bilac enfatiza as mazelas da escravidão no Brasil ao
- Adescrever de modo impessoal as consequências da exploração racial sobre as gerações futuras.
- Bcontrapor a infância privilegiada das crianças da época à infância violentada das crianças escravizadas.
- Cantecipar o futuro apagamento das marcas da escravidão no contexto social. (alternativa correta)
- Dcriticar a atenuação da violência contra os povos escravizados nas memórias retratadas pelos museus.
- Eimaginar a reação de indiferença de seus contemporâneos com os escravizados libertos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
O texto de Bilac lamenta que as marcas da escravidão (troncos, vira-mundos, bacalhaus, memórias) só sobrevivam em museus e relatos, ou seja, ele projeta um futuro em que a sociedade tende a esquecer/minimizar esse passado — daí "antecipar o apagamento". A pegadinha é confundir "indignação futura" com "denúncia do presente"; o foco do autor é o esquecimento social que virá.
- (A) Incorreta: o texto é pessoal e emocional ("orquestração satânica", "gemer da raça mártir"), não impessoal; além disso, foca no horror vivido, não só nas "gerações futuras".
- (B) Incorreta: as crianças que jogam peteca aparecem só como contraste inicial para introduzir o tema; não é uma comparação sistemática entre infâncias.
- (C) Correta: o autor diz que os meninos "não viram nunca um escravo" e que só quando crescerem saberão — sinal de que as marcas serão reduzidas a museu e notícia, isto é, apagadas do cotidiano social.
- (D) Incorreta: Bilac não critica os museus; ele os cita como prova de que o horror virou peça de coleção, reforçando a ideia de distanciamento/esquecimento.
- (E) Incorreta: o texto não trata de indiferença aos libertos; fala da memória futura da escravidão, não da recepção social dos ex-escravizados.
Distrator mais tentador — (B): a banca explora a menção às "crianças jogando peteca" para induzir o aluno a achar que há uma comparação de infâncias. Armadilha: o trecho é só gancho narrativo para introduzir o tema; a tese central é o esquecimento futuro das marcas da escravidão, não um paralelo entre crianças livres e escravizadas.
Fonte: INEP ENEM 2023 (Caderno Azul). Reproduzida para fins de estudo.