Questão nº 11

Questão de Língua Portuguesa II · CESGRANRIO PSS IBGE 03/2016 (nº 11)

CESGRANRIO2016Comum Supervisor de PesquisasLíngua Portuguesa II
Gabarito: Cver comentário ↓

Os pobres

Todo o mundo conhece os pobres. Os despossuídos de tudo, humilhados pela vida que lhes foi roubada. As gentes tristes do mundo. As sem pão e sem beleza. As a que falta esperança. Que vivem dentro de um horizonte tão retraído que nele não cabe um futuro que não seja a repetição da vida ruim. Para eles e seus filhos. E netos. Como se a pobreza fosse genética e hereditária. Um fato da natureza. Ou um castigo de Deus, dos que vão passando através de gerações.

Nada de natureza, nada de Deus. Pobreza não é castigo. É imposição. Ninguém tem na pobreza qualquer alegria. Os catadores de lixo encontram nessa atividade o muito pouco com que se sustentam e às suas famílias, quando elas também não estão enterradas na sujeira dos outros, selecionando coisas ainda aproveitáveis, sabe-se lá para quê. É o limite do desespero. Salvar da aniquilação os rejeitos de vidas alheias, que, para quem está abaixo de todas as linhas da pobreza e da dignidade, valem a própria vida. Urubus voam por cima dos lixões. Aquelas montanhas são seus territórios de morte. Os que catam lixo disputam a vida com os urubus.

Sei que separar o lixo é uma atividade ecológica e economicamente relevante. O inadmissível é que ela não seja feita na recolha seletiva prévia do que ainda serve para algum fim útil e do que está destinado à putrefação dos cadáveres. Os catadores chafurdam em todas as porcarias para extrair delas uma garrafa, uma tampa de sanitário, uma bota velha de um só pé. Resgatam do naufrágio coisas tristes como eles, os jogados fora por uma sociedade que desperdiça coisas como desperdiça pessoas. Que joga fora o que não serve. Os pobres não servem para uma sociedade que consome acima dos limites de uma vida comum. Ou servem: alguém precisa fazer o trabalho sujo.

Penso num poema de Manuel Bandeira. Algo, um bicho certamente, remexia nas latas de lixo. “Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade.” E os olhos insones do poeta se estarreceram quando viu a verdade da miséria: “O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” Esses bichos são homens. São como eu e vocês, meus companheiros de sábado. São homens.

E a fome! Meu Deus, a fome! A nós ronca o estômago quando se espaça demais o intervalo entre as refeições. A barriga dos pobres já não ronca. Seu vazio não tem o conforto da proximidade da próxima comida. São barrigas tristes. De dor interna e de abandono. Deitados nos cantos dos edifícios, nas calçadas onde moram, estendem mãos sem esperança. “Para comer”, dizem. E nós passamos, tomando distâncias cautelosas, pela ponta dos meios-fios. Podem ser perigosos. Estão sujos. E cheiram mal.

Passamos ao largo. Tomamos distância. Fugimos. Deles, sim. Mas, no mais fundo das nossas consciências adormecidas, fugimos de nós. Os pobres, lixo da vida, estão lá — e nem nos acusam! — e nos lembram do outro lixo, aquele em que jogamos coisas ainda usáveis, sem pensarmos que alguém naquela calçada podia fazer com elas uma roupa, um abrigo para o frio. Um farrapo de esperança digna. Fugimos do beco onde algo chafurda nas latas de lixo, e come com voracidade o que encontra. E não é um bicho, meu Deus. É um homem.


A palavra destacada em “Resgatam do naufrágio coisas tristes como eles, os jogados fora por uma sociedade que desperdiça coisas como desperdiça pessoas.” (Texto I, ℓ. 31-33) poderia ser substituída, sem mudança no sentido original do enunciado, por

Resposta comentada

Gabarito Alternativa C

Conceito-chave: Sinonímia é a relação entre palavras que têm sentido parecido ou equivalente em um dado contexto. Para acertar, você não pode trocar a palavra por qualquer sinônimo do dicionário; precisa ver qual termo mantém o mesmo sentido dentro da frase e do texto.

  • (A) Incorreta: "Viagem" não tem relação com o contexto de destruição e perda; "naufrágio" aqui é uma metáfora de ruína, não de deslocamento.
  • (B) Incorreta: "Barco" é o objeto físico que naufraga, mas a palavra foi usada para representar a situação de perda total, não o veículo em si.
  • (C) Correta: No texto, "naufrágio" significa o estado de tudo que foi jogado fora, rejeitado. "Descarte" é exatamente o ato de desprezar, de lançar fora, mantendo a ideia de coisas e pessoas abandonadas pela sociedade.
  • (D) Incorreta: "Chão" é o lugar físico onde as coisas caem, mas não carrega o sentido de abandono e desperdício que a frase exige.
  • (E) Incorreta: "Caminhão" é um veículo de coleta, não tem nenhuma relação com a ideia de perda ou rejeição presente no trecho.

Armadilha da banca: O distrator mais tentador é a letra B) barco, porque "naufrágio" remete imediatamente a um barco que afunda. Mas a banca explora o sentido figurado: o autor não fala de um barco, e sim de um "naufrágio" da dignidade humana, ou seja, do descarte de pessoas e objetos pela sociedade.

Fonte: CESGRANRIO PSS IBGE 03/2016 Conhecimentos Comuns (Supervisor de Pesquisas) (Caderno Tipo Único). Reproduzida para fins de estudo.

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