Questão nº 7
Questão de Língua Portuguesa II · CESGRANRIO PSS IBGE 03/2016 (nº 7)
Os pobres
Todo o mundo conhece os pobres. Os despossuídos de tudo, humilhados pela vida que lhes foi roubada. As gentes tristes do mundo. As sem pão e sem beleza. As a que falta esperança. Que vivem dentro de um horizonte tão retraído que nele não cabe um futuro que não seja a repetição da vida ruim. Para eles e seus filhos. E netos. Como se a pobreza fosse genética e hereditária. Um fato da natureza. Ou um castigo de Deus, dos que vão passando através de gerações.
Nada de natureza, nada de Deus. Pobreza não é castigo. É imposição. Ninguém tem na pobreza qualquer alegria. Os catadores de lixo encontram nessa atividade o muito pouco com que se sustentam e às suas famílias, quando elas também não estão enterradas na sujeira dos outros, selecionando coisas ainda aproveitáveis, sabe-se lá para quê. É o limite do desespero. Salvar da aniquilação os rejeitos de vidas alheias, que, para quem está abaixo de todas as linhas da pobreza e da dignidade, valem a própria vida. Urubus voam por cima dos lixões. Aquelas montanhas são seus territórios de morte. Os que catam lixo disputam a vida com os urubus.
Sei que separar o lixo é uma atividade ecológica e economicamente relevante. O inadmissível é que ela não seja feita na recolha seletiva prévia do que ainda serve para algum fim útil e do que está destinado à putrefação dos cadáveres. Os catadores chafurdam em todas as porcarias para extrair delas uma garrafa, uma tampa de sanitário, uma bota velha de um só pé. Resgatam do naufrágio coisas tristes como eles, os jogados fora por uma sociedade que desperdiça coisas como desperdiça pessoas. Que joga fora o que não serve. Os pobres não servem para uma sociedade que consome acima dos limites de uma vida comum. Ou servem: alguém precisa fazer o trabalho sujo.
Penso num poema de Manuel Bandeira. Algo, um bicho certamente, remexia nas latas de lixo. “Quando achava alguma coisa, não examinava nem cheirava: engolia com voracidade.” E os olhos insones do poeta se estarreceram quando viu a verdade da miséria: “O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” Esses bichos são homens. São como eu e vocês, meus companheiros de sábado. São homens.
E a fome! Meu Deus, a fome! A nós ronca o estômago quando se espaça demais o intervalo entre as refeições. A barriga dos pobres já não ronca. Seu vazio não tem o conforto da proximidade da próxima comida. São barrigas tristes. De dor interna e de abandono. Deitados nos cantos dos edifícios, nas calçadas onde moram, estendem mãos sem esperança. “Para comer”, dizem. E nós passamos, tomando distâncias cautelosas, pela ponta dos meios-fios. Podem ser perigosos. Estão sujos. E cheiram mal.
Passamos ao largo. Tomamos distância. Fugimos. Deles, sim. Mas, no mais fundo das nossas consciências adormecidas, fugimos de nós. Os pobres, lixo da vida, estão lá — e nem nos acusam! — e nos lembram do outro lixo, aquele em que jogamos coisas ainda usáveis, sem pensarmos que alguém naquela calçada podia fazer com elas uma roupa, um abrigo para o frio. Um farrapo de esperança digna. Fugimos do beco onde algo chafurda nas latas de lixo, e come com voracidade o que encontra. E não é um bicho, meu Deus. É um homem.
Os dois-pontos em “Ou servem: alguém precisa fazer o trabalho sujo.” (ℓ. 36-37) podem, no Texto I, ser substituídos, sem alteração do sentido original, por
- Aà medida que
- Bou
- Cjá que (alternativa correta)
- Dmas
- Eembora
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Conceito-chave: Dois-pontos podem introduzir uma explicação ou justificativa para a ideia anterior. Nesse caso, “alguém precisa fazer o trabalho sujo” explica por que os pobres “servem”. O conectivo que faz exatamente isso é “já que” (valor causal/explicativo).
- (A) Incorreta: “À medida que” indica proporção ou simultaneidade, não explicação. A frase ficaria ilógica: “servem à medida que alguém precisa fazer o trabalho sujo” (sugere que o servir depende do tempo, não da necessidade).
- (B) Incorreta: “Ou” é uma conjunção alternativa (exclusão ou equivalência). Trocar os dois-pontos por “ou” criaria uma falsa oposição entre “servem” e “alguém precisa”, quando na verdade a segunda parte justifica a primeira.
- (C) Correta: “Já que” é uma conjunção causal explicativa. Mantém o sentido original: “servem porque alguém precisa fazer o trabalho sujo”. É a substituição perfeita para os dois-pontos que introduzem a razão da afirmação anterior.
- (D) Incorreta: “Mas” é adversativo (oposição). A frase viraria “servem, mas alguém precisa...”, o que criaria um contraste que não existe no texto. A banca usa isso como pegadinha: o leitor pode achar que há uma ressalva irônica, mas o sentido é de justificativa, não de oposição.
- (E) Incorreta: “Embora” é concessivo (ideia de obstáculo ou ressalva). “Servem, embora alguém precise...” indicaria que o trabalho sujo é um problema apesar de eles servirem, o que inverte a lógica do autor (a necessidade é justamente o motivo de eles servirem).
Fonte: CESGRANRIO PSS IBGE 03/2016 Conhecimentos Comuns (Supervisor de Pesquisas) (Caderno Tipo Único). Reproduzida para fins de estudo.