Questão nº 3

Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO CAIXA 01/2012 (nº 3)

CESGRANRIO2012AdvogadoLíngua Portuguesa
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A palavra

Freud costumava dizer que os escritores precederam os psicanalistas na descoberta do inconsciente. Tudo porque literatura e psicanálise têm um profundo elo em comum: a palavra.

Já me perguntei algumas vezes como é que uma pessoa que tem dificuldade com a palavra consegue externar suas fantasias e carências durante uma terapia. Consultas são um refinado exercício de comunicação. Se relacionamentos amorosos fracassam por falhas na comunicação, creio que a relação terapêutica também poderá naufragar diante da impossibilidade de o paciente se fazer entender.

Estou lendo um belo livro de uma autora que, além de poeta, é psicanalista, Sandra Niskier Flanzer. E o livro se chama justamente “a pa-lavra”, assim, em minúsculas e salientando o verbo contido no substantivo. Lavrar: revolver e sulcar a terra, prepará-la para o cultivo.

Se eu tenho um Deus, e tenho alguns, a palavra é certamente um deles. Um Deus feminino, porém não menos dominador. Ela, a palavra, foi determinante na minha trajetória não só profissional, mas existencial. Só cheguei a algum lugar nessa vida por me expressar com clareza, algo que muitos consideram fácil, mas fácil é escrever com afetação. A clareza exige simplicidade, foco, precisão e generosidade. A pessoa que nos ouve e que nos lê não é obrigada a ter uma bola de cristal para descobrir o que queremos dizer. Falar e escrever sem necessidade de tradução ou legenda: eis um dom que é preciso desenvolver todos os dias por aqueles que apreciam viver num mundo com menos obstáculo.

A palavra, que ferramenta.

É uma pena que haja tamanha displicência em relação ao seu uso. Poucos se dão conta de que ela é a chave que abre as portas mais emperradas, que ela facilita negociações, encurta caminhos, cria laços, aproxima as pessoas. Tanta gente nasce e morre sem dialogar com a vida. Contam coisas, falam por falar, mas não conversam, não usam a palavra como elemento de troca. Encantam-se pelo som da própria voz e, nessa onda narcísica, qualquer palavra lhes serve.

Mas não. Não serve qualquer uma.

A palavra exata é um pequeno diamante. Embeleza tudo: o convívio, o poema, o amor. Quando a palavra não tem serventia alguma, o silêncio mantém-se no posto daquele que melhor fala por nós.

Em terapia – voltemos ao assunto inicial – temos que nos apresentar sem defesas, relatar impressões do passado, tornar públicas nossas aflições mais secretas, perder o pudor diante das nossas fraquezas, ser honestos de uma forma quase violenta, tudo em busca de uma “absolvição” que nos permita viver sem arrastar tantas correntes. Como atingir o ponto nevrálgico das nossas dores sem o bisturi certeiro da palavra? É através dela que a gente se cura.

MEDEIROS, Martha. A palavra. Revista O Globo. 18 set. 2011.


O trecho “Mas não. Não serve qualquer uma.” (ℓ. 44) pode ter sua pontuação alterada, sem modificar-lhe o sentido original, em:

Resposta comentada

Gabarito Alternativa A

Conceito-chave: Os dois-pontos podem substituir o ponto final quando a segunda oração explica ou detalha a ideia da primeira, mantendo a relação de sentido. A vírgula, o ponto e vírgula e o travessão têm funções diferentes e, nesse caso, quebrariam a coesão ou criariam pausas indevidas.

  • (A) Correta: A substituição do ponto final por dois-pontos é válida, pois a frase “não serve qualquer uma” explica a afirmação anterior (“Mas não”), preservando o sentido original de negação e justificativa.
  • (B) Incorreta: O ponto e vírgula após “não” e a vírgula após “não serve” criam pausas e separações que fragmentam a frase, alterando o fluxo e o sentido.
  • (C) Incorreta: O ponto e vírgula separa o verbo “serve” do seu sujeito “qualquer uma”, quebrando a estrutura sintática e o sentido.
  • (D) Incorreta: Os dois-pontos após “Mas” e o ponto após o segundo “não” isolam termos que deveriam estar conectados, mudando completamente a ênfase e o significado.
  • (E) Incorreta: O travessão seguido de ponto e vírgula é uma combinação inadequada; o travessão já indica uma pausa forte, e o ponto e vírgula cria outra, tornando a leitura confusa e o sentido truncado.

Armadilha da banca na alternativa mais tentadora (B): A banca tenta confundir o aluno com o uso de ponto e vírgula e vírgula, que parecem “organizar” a frase, mas na verdade separam elementos que devem ficar juntos (o verbo “serve” e seu sujeito “qualquer uma”), além de criar uma pausa desnecessária após “não”, quebrando a negação enfática do original.

Fonte: CESGRANRIO CAIXA 01/2012 Advogado (Caderno Prova 1). Reproduzida para fins de estudo.

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