Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO CAIXA 01/2012 (nº 2)
A palavra
Freud costumava dizer que os escritores precederam os psicanalistas na descoberta do inconsciente. Tudo porque literatura e psicanálise têm um profundo elo em comum: a palavra.
Já me perguntei algumas vezes como é que uma pessoa que tem dificuldade com a palavra consegue externar suas fantasias e carências durante uma terapia. Consultas são um refinado exercício de comunicação. Se relacionamentos amorosos fracassam por falhas na comunicação, creio que a relação terapêutica também poderá naufragar diante da impossibilidade de o paciente se fazer entender.
Estou lendo um belo livro de uma autora que, além de poeta, é psicanalista, Sandra Niskier Flanzer. E o livro se chama justamente “a pa-lavra”, assim, em minúsculas e salientando o verbo contido no substantivo. Lavrar: revolver e sulcar a terra, prepará-la para o cultivo.
Se eu tenho um Deus, e tenho alguns, a palavra é certamente um deles. Um Deus feminino, porém não menos dominador. Ela, a palavra, foi determinante na minha trajetória não só profissional, mas existencial. Só cheguei a algum lugar nessa vida por me expressar com clareza, algo que muitos consideram fácil, mas fácil é escrever com afetação. A clareza exige simplicidade, foco, precisão e generosidade. A pessoa que nos ouve e que nos lê não é obrigada a ter uma bola de cristal para descobrir o que queremos dizer. Falar e escrever sem necessidade de tradução ou legenda: eis um dom que é preciso desenvolver todos os dias por aqueles que apreciam viver num mundo com menos obstáculo.
A palavra, que ferramenta.
É uma pena que haja tamanha displicência em relação ao seu uso. Poucos se dão conta de que ela é a chave que abre as portas mais emperradas, que ela facilita negociações, encurta caminhos, cria laços, aproxima as pessoas. Tanta gente nasce e morre sem dialogar com a vida. Contam coisas, falam por falar, mas não conversam, não usam a palavra como elemento de troca. Encantam-se pelo som da própria voz e, nessa onda narcísica, qualquer palavra lhes serve.
Mas não. Não serve qualquer uma.
A palavra exata é um pequeno diamante. Embeleza tudo: o convívio, o poema, o amor. Quando a palavra não tem serventia alguma, o silêncio mantém-se no posto daquele que melhor fala por nós.
Em terapia – voltemos ao assunto inicial – temos que nos apresentar sem defesas, relatar impressões do passado, tornar públicas nossas aflições mais secretas, perder o pudor diante das nossas fraquezas, ser honestos de uma forma quase violenta, tudo em busca de uma “absolvição” que nos permita viver sem arrastar tantas correntes. Como atingir o ponto nevrálgico das nossas dores sem o bisturi certeiro da palavra? É através dela que a gente se cura.
MEDEIROS, Martha. A palavra. Revista O Globo. 18 set. 2011.
No período “Um Deus feminino, porém não menos dominador.” (ℓ. 20-21), o uso da conjunção insere a ideia de que a palavra
- Aenobrece o homem.
- Bapresenta função religiosa.
- Cpertence ao gênero feminino.
- Dexerce poder sobre as pessoas. (alternativa correta)
- Ehierarquiza a relação entre os sexos.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa D
Conceito-chave: Conjunções adversativas (como “porém”) ligam duas ideias que se opõem, mas a segunda ideia é a que prevalece e orienta o sentido. Aqui, o contraste é entre “feminino” (uma característica) e “dominador” (outra característica), e o que o autor quer destacar é o poder que a palavra exerce — não o gênero dela.
- (A) Incorreta: O texto não fala em “enobrecer” o homem; a palavra é comparada a ferramenta, chave e bisturi, mas nunca a algo que dá nobreza a alguém.
- (B) Incorreta: A palavra é chamada de “Deus” apenas como metáfora de sua importância, não como elemento de culto religioso ou função litúrgica.
- (C) Incorreta: “Feminino” é só um adjetivo da metáfora (“Deus feminino”), não uma tese sobre o gênero gramatical da palavra; a banca quer que você não confunda característica com ideia central.
- (D) Correta: O “porém” introduz a oposição: mesmo sendo “feminina”, a palavra é “dominadora” — ou seja, exerce poder sobre as pessoas, como o texto confirma ao dizer que ela “abre portas”, “facilita negociações” e “cria laços”.
- (E) Incorreta: Não há hierarquia entre sexos; a oposição “feminino” vs. “dominador” é uma figura de linguagem, não uma discussão sobre relações de gênero.
Armadilha da banca: A alternativa (C) é a mais tentadora porque repete a palavra “feminino” do texto, mas ela é só um detalhe da metáfora. A banca testa se você entende que a conjunção “porém” inverte o foco: o que importa é o poder (“dominador”), não o gênero.
Fonte: CESGRANRIO CAIXA 01/2012 Advogado (Caderno Prova 1). Reproduzida para fins de estudo.