Questão nº 5
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2024 (nº 5)
A fala vegetal
Não é mistério para os entendidos que há uma linguagem das plantas, ou, para ser mais exato, que a cada planta corresponde uma linguagem. Como a variedade de plantas é infinita, faz-se impossível ao entendimento, por muito atilado que seja, captar todas as vozes de vegetais. E só os mais perspicazes entre os humanos conseguem entender a conversa entre duas plantas de espécies diferentes: cada uma usa o seu vocabulário, como por exemplo num diálogo em que A falasse em espanhol e B respondesse em alemão.
1
Levindo, jardineiro experiente, chegou a dominar as linguagens que se entrecruzavam no jardim. Um leigo diria que não se escutava nada, salvo o zumbir de moscas e besouros, mas ele chegava a distinguir o suspiro de uma violeta, e suas confidências ao amor-perfeito não eram segredo para os ouvidos daquele homem.
2
Até que um dia as plantas desconfiaram que estavam sendo espionadas e planejaram a conspiração de silêncio contra Levindo. Passaram a comunicar-se por meio de sinais altamente sigilosos, renovados a cada semana. Em vão o jardineiro se acocorava a noite inteira no jardim, na esperança de decifrar o código. Enlouqueceu.
3
Perdendo o emprego, as coisas não voltaram à normalidade. As plantas haviam esquecido o hábito de conversar direito. Já não se entendiam, brigavam de haste contra haste, muitas se aniquilaram em combate. O jardim foi invadido pelas cabras, que pastaram o restante da vegetação.
4
A frase em que a colocação do pronome átono se está de acordo com a norma-padrão da língua portuguesa é:
- AAs plantas nunca desentenderam-se naquele jardim.
- BCaso unam-se contra o jardineiro, ele não terá chance.
- CEle diuturnamente se dedicava a decifrar aquele código. (alternativa correta)
- DPlantas de diferentes espécies não entender-se-ão jamais.
- ESe impressionar com o mistério da fala das plantas é normal.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
Colocação pronominal trata de onde encaixar o pronome átono (como "se", "me", "te") em relação ao verbo. A regra prática: não se começa frase com pronome átono e ele deve ficar depois do verbo (ênclise) quando a frase começa com verbo, mas antes do verbo (próclise) quando há uma palavra atrativa (como advérbio, pronome relativo, conjunção) antes dele.
- (A) Incorreta: "desentenderam-se" exige próclise, pois "nunca" (advérbio de negação) atrai o pronome para antes do verbo: "nunca se desentenderam".
- (B) Incorreta: "unam-se" está em ênclise, mas a conjunção "Caso" (subordinativa) atrai o pronome para antes: "Caso se unam".
- (C) Correta: "diuturnamente" (advérbio de tempo) é palavra atrativa, então o pronome "se" deve vir antes do verbo: "diuturnamente se dedicava". A ordem está perfeita.
- (D) Incorreta: "entender-se-ão" (ênclise com mesóclise) está errada, pois o sujeito "Plantas de diferentes espécies" não atrai próclise, mas a forma correta seria "não se entenderão" (com "não" atraindo) ou "entender-se-ão" só se não houvesse palavra atrativa — aqui, "não" exige próclise.
- (E) Incorreta: "Se impressionar" inicia a frase com pronome átono, o que é proibido na norma-padrão. O correto seria "Impressio nar-se" ou "É normal impressionar-se".
Armadilha da banca na (B): o aluno vê "Caso unam-se" e acha que está certo porque "unam-se" soa natural, mas esquece que conjunções subordinativas (como "caso", "se", "quando") são atrativas obrigatórias de próclise. A banca explora exatamente esse reflexo automático de colocar o pronome depois do verbo.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2024 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação (Caderno Prova B). Reproduzida para fins de estudo.