Questão nº 2
Questão de Língua Portuguesa · CESGRANRIO BASA 01/2024 (nº 2)
A fala vegetal
Não é mistério para os entendidos que há uma linguagem das plantas, ou, para ser mais exato, que a cada planta corresponde uma linguagem. Como a variedade de plantas é infinita, faz-se impossível ao entendimento, por muito atilado que seja, captar todas as vozes de vegetais. E só os mais perspicazes entre os humanos conseguem entender a conversa entre duas plantas de espécies diferentes: cada uma usa o seu vocabulário, como por exemplo num diálogo em que A falasse em espanhol e B respondesse em alemão.
1
Levindo, jardineiro experiente, chegou a dominar as linguagens que se entrecruzavam no jardim. Um leigo diria que não se escutava nada, salvo o zumbir de moscas e besouros, mas ele chegava a distinguir o suspiro de uma violeta, e suas confidências ao amor-perfeito não eram segredo para os ouvidos daquele homem.
2
Até que um dia as plantas desconfiaram que estavam sendo espionadas e planejaram a conspiração de silêncio contra Levindo. Passaram a comunicar-se por meio de sinais altamente sigilosos, renovados a cada semana. Em vão o jardineiro se acocorava a noite inteira no jardim, na esperança de decifrar o código. Enlouqueceu.
3
Perdendo o emprego, as coisas não voltaram à normalidade. As plantas haviam esquecido o hábito de conversar direito. Já não se entendiam, brigavam de haste contra haste, muitas se aniquilaram em combate. O jardim foi invadido pelas cabras, que pastaram o restante da vegetação.
4
No parágrafo 4, o fragmento "que pastaram o restante da vegetação" evidencia um cenário de
- Atédio
- Bdesolação (alternativa correta)
- Csaudade
- Ddesespero
- Einconformismo
Resposta comentada
Gabarito Alternativa B
Conceito-chave: A questão pede para você identificar o efeito de sentido que uma palavra ou expressão cria no texto. "Pastaram" (comeram) não é só uma ação física; no contexto, ela simboliza o fim total, a destruição do que restava. Desolação é um estado de ruína, abandono e vazio — exatamente o que o jardim virou depois que as plantas morreram e as cabras comeram o resto.
- (A) Incorreta: Tédio é um tédio de "não ter o que fazer", mas o cenário é de destruição ativa (plantas mortas, jardim invadido), não de monotonia ou falta de estímulo.
- (B) Correta: O fragmento "pastaram o restante" finaliza a sequência de caos (plantas brigando, se aniquilando) com a aniquilação completa do jardim. Isso gera um quadro de desolação — ruína, vazio e abandono total, sem qualquer vestígio de vida ou ordem.
- (C) Incorreta: Saudade é um sentimento de nostalgia ou falta de algo que existiu. O texto não foca na lembrança ou no apego emocional de ninguém; foca no resultado físico da destruição.
- (D) Incorreta: Desespero é uma emoção de quem está em pânico ou sem saída. O narrador descreve o cenário de fora, como um fato consumado ("as coisas não voltaram à normalidade"), sem expressar o sentimento de pânico de um personagem.
- (E) Incorreta: Inconformismo é uma revolta ou recusa em aceitar algo. O texto não mostra ninguém se rebelando contra a destruição; as cabras apenas agem por instinto, e o cenário é de aceitação passiva do fim.
Armadilha da banca: O distrator mais tentador é a (D) desespero, porque o parágrafo 2 termina com "Enlouqueceu" (Levindo). O aluno liga "enlouquecer" a "desespero" e marca D. Mas a pergunta é específica sobre o fragmento do parágrafo 4 ("que pastaram o restante"), que descreve o resultado material do jardim, não o estado psicológico de Levindo. A banca troca a emoção de um personagem pelo efeito visual do cenário final.
Fonte: CESGRANRIO BASA 01/2024 Técnico Científico - Área de Formação: Tecnologia da Informação (Caderno Prova B). Reproduzida para fins de estudo.