Questão nº 10
Questão de Língua Portuguesa · CEBRASPE SUSEP 2025 (nº 10)
Creio que, em geral, deixando de lado a opinião dos especialistas, damos demasiada importância à opinião dos outros, tanto em assuntos cruciais quanto em assuntos de pequena monta. A regra básica é que uma pessoa deve respeitar a opinião pública apenas o suficiente para não morrer de fome nem ir para a cadeia. Tudo o que passar desse ponto significa submeter-se voluntariamente a uma tirania desnecessária, e, possivelmente, isso é o que acaba interferindo na própria felicidade.
Examinemos, por exemplo, a questão de como as pessoas gastam seu dinheiro. Elas o gastam naquilo que não satisfaz seus gostos pessoais, simplesmente porque acreditam que o respeito dos vizinhos depende de terem carro ou de abrirem suas residências para jantares. Na verdade, uma pessoa que possa claramente comprar um carro, mas que prefira gastar o dinheiro em viagens ou numa boa biblioteca, acabará sendo muito mais respeitada do que se houvesse feito exatamente como todas as outras. Não há sentido em zombar deliberadamente da opinião pública; isso é admitir seu domínio, ainda que às avessas. Mas ser autenticamente indiferente a ela é uma força e uma fonte de felicidade. E uma sociedade de homens e mulheres que não se submetem demasiadamente aos convencionalismos é mais interessante do que uma sociedade em que todos se comportam da mesma maneira.
Bertrand Russell. A conquista da felicidade. Tradução: Luiz Guerra. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2017 (com adaptações).
A respeito das ideias e de aspectos linguísticos do texto precedente, julgue os itens que se seguem.
Sem prejuízo da correção gramatical e da coerência das ideias do texto, o vocábulo "houvesse" (terceiro período do segundo parágrafo) poderia ser substituído por tivesse.
Resposta comentada
O verbo haver, no sentido de "existir", é impessoal: fica sempre na 3ª pessoa do singular e é usado como auxiliar em tempos compostos nessa mesma forma fixa. Já ter, quando substitui haver como auxiliar, é flexionável normalmente — então "se tivesse feito" equivale perfeitamente a "se houvesse feito", sem mudar sentido nem gramática.
- Correta: Certo. "Se houvesse feito" e "se tivesse feito" são equivalentes: ambos formam a mesma locução verbal (auxiliar + particípio "feito") no mesmo tempo/modo composto, e ter é auxiliar legítimo nesse contexto.
Fica de olho: a banca costuma trocar a substituição por um caso em que ter NÃO pode entrar — quando haver está no sentido de existir (impessoal, sem sujeito). Ex.: "Havia muitas pessoas" não vira "Tinham muitas pessoas" (o correto seria "Tinha muitas pessoas", ainda no singular). Se o item propuser essa troca com plural, está errado.
Fonte: CEBRASPE SUSEP 2025 Conhecimentos Comuns (Analista Técnico SUSEP 2025). Reproduzida para fins de estudo.