Questão nº 44
Questão de Psicologia · FGV TJAM 2013 (nº 44)
Uma moça de dezenove anos, que trabalhava como empregada doméstica na casa de duas senhoras idosas, entrou em crise depois de romper o noivado. Segundo as testemunhas, não queria se levantar da cama, chorava muito, insinuava que "poderia fazer alguma bobagem" e falava coisas desconexas. Assustadas, as senhoras chamaram a emergência psiquiátrica que avaliou a paciente, que se mostrou colaborativa, estabelecendo boa relação com o médico, contando sua história de forma coerente. Ao final da avaliação, a paciente foi medicada e orientada a buscar um ambulatório de saúde mental.
Com base no caso descrito, assinale a afirmativa correta.
- AA paciente deveria ter sido internada para melhor avaliação, uma vez que falava em "fazer alguma bobagem".
- BO quadro sugere o início de um surto esquizofrênico.
- CA orientação do médico está de acordo com as atuais diretrizes da política de atendimento em saúde mental. (alternativa correta)
- DO quadro sugere um transtorno hebefrênico.
- EO quadro sugere um transtorno depressivo agudo.
Resposta comentada
Gabarito Alternativa C
A política de saúde mental no Brasil, através da Reforma Psiquiátrica e da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), prioriza o atendimento em liberdade e na comunidade, evitando internações desnecessárias e buscando a reabilitação psicossocial. O manejo da crise visa estabilizar o paciente e integrá-lo à rede de serviços ambulatoriais.
- (A) Incorreta: A internação é a última medida, reservada para casos de risco iminente e grave que não podem ser contidos em outros dispositivos. Embora a fala inicial sobre "fazer alguma bobagem" seja um sinal de alerta, a avaliação posterior mostrou a paciente colaborativa e coerente. A RAPS busca o tratamento no ambiente menos restritivo possível. A "pegadinha" aqui é focar apenas na fala inicial de risco, ignorando a melhora do quadro durante a avaliação e a possibilidade de manejo ambulatorial.
- (B) Incorreta: O quadro inicial de "falar coisas desconexas" é muito inespecífico para sugerir um surto esquizofrênico. Muitos estados de crise aguda, ansiedade extrema ou depressão grave podem causar desorganização do pensamento e da fala temporariamente. Além disso, a paciente se mostrou coerente na avaliação.
- (C) Correta: A orientação do médico está alinhada com as diretrizes da RAPS e da Reforma Psiquiátrica. Após a avaliação, a paciente foi medicada e encaminhada para acompanhamento ambulatorial, o que indica que o risco imediato foi contido e que o tratamento será continuado em um serviço comunitário, evitando a internação desnecessária e promovendo a autonomia.
- (D) Incorreta: O transtorno hebefrênico é um tipo de esquizofrenia (hoje chamado de esquizofrenia desorganizada), que se manifesta com desorganização do pensamento, afeto e comportamento. Assim como na alternativa B, a informação "falava coisas desconexas" é insuficiente e prematura para um diagnóstico tão específico, especialmente considerando a coerência posterior da paciente.
- (E) Incorreta: Embora "não queria se levantar da cama, chorava muito" sugira sintomas depressivos, a expressão "falava coisas desconexas" e a insinuação de "fazer alguma bobagem" indicam um quadro mais complexo e agudo do que um simples "transtorno depressivo agudo" (termo que não é uma categoria diagnóstica padrão). A crise é multifacetada e não se encaixa perfeitamente apenas nessa descrição.
Fonte: FGV TJAM 2013 Psicologia (Caderno Tipo 1). Reproduzida para fins de estudo.